sábado, 15 de outubro de 2011

AIDS Felina

A síndrome da imunodeficiência adquirida em felinos (FAIDS) é induzida por um vírus da família Retroviridae (Retrovírus) de duas subfamílias : o vírus da imunodeficiência felina (FIV) que pertence à subfamília Lentivirinae e o vírus da leucemia felina (FeLV) pertencente à subfamília Oncovirinae. Ambos são considerados como os mais importantes agentes etiológicos de doenças virais em gatos, pois afetam o sistema imunológico , levando a alta morbidade e mortalidade em seus hospedeiros. A infecção por FIV e FeLV possui prevalência alta na população felina, e é frequentemente diagnosticada em gatos domésticos de todo mundo. Embora possuam características semelhantes quanto ao potencial imunossupressor e possam acometer um felino concomitantemente, devem ser abordadas de forma distinta, devido às peculiaridades individuais de cada uma delas.

  • FIV 
A Imunodeficiência felina é uma doença causada por um lentivirus que pode estabelecer infecção persistente em gatos domésticos. O vírus é  transmitido mais comumente por meio de mordeduras ocorridas durante brigas, sendo inoculado através de ferimentos, o que faz dos machos de vida livre o grupo de maior risco de contágio.  Gatas acometidas durante a gestação podem transmitir a doença ao feto ou filhote , e outro meio de transmissão ocorre por transfusões de sangue contaminado pelo vírus.

Pode ser caracterizada em cinco estágios , com base nos sinais clínicos observados. O estágio I ou fase aguda pode durar semanas ou meses, e se caracterizar pela ausência de sinais clínicos ou por sintomatologia inespecífica como febre, prostração, diarréia e infecções respiratórias. No estágio II os animais acometidos podem permanecer assintomáticos durante longo período de tempo (6 anos em média). O estágio III se caracteriza por linfoadenomegalia (aumento generalizado dos linfonodos) , e pode durar meses. O estágio IV, denominado Complexo relacionado à AIDS (ARC) , se caracteriza pelo aparecimento das alterações de natureza crônica, como infecções dermatológicas , respiratórias ou entéricas, sendo as gengivites, estomatites e periodontites os achados clínicos mais comuns ,  e podendo durar meses a anos. O estágio V também denominado fase terminal da doença ou síndrome da imunodeficiência adquirida felina (FAIDS), é progressiva e fatal, podendo durar meses e levando o portador à enfermidades relacionadas à imunossupressão e à insuficiência renal crônica.

Trata-se de uma doença sem cura, entretanto possui um prognóstico reservado, já que um animal portador de FIV pode viver por muitos anos sem manifestar sintomas clínicos graves. Medidas profiláticas devem ser adotadas e cuidados com a saúde do felino portador são de fundamental importância. Uma vez diagnosticada a doença, o animal deve ser submetido a acompanhamento médico veterinário frequente, já que tem-se na prevenção e na cura das infecções oportunistas a base de seu tratamento. Devem ser submetidos a consultas de rotina , com avaliações laboratoriais e controle do peso. Além disso, a restrição do gato portador a ambientes externos, evita a contaminação de outros felinos , bem como a preservação de sua saúde evitando o aparecimento de enfermidades secundárias.


  • FeLV
A Leucemia felina é causada por um retrovírus oncogênico e infecta gatos de todo o mundo, estando associada tanto a doenças neoplásicas quanto não neoplásicas e imunossupressoras. A incidência desta infecção está diretamente relacionada à densidade populacional, já que é facilmente transmitida pelo contato oronasal, tornando a doença altamente contagiosa entre gatos que convivem em grupos, principalmente os filhotes. Esta transmissão ocorre principalmente pela saliva, não sendo necessário a existência de ferimentos, como na FIV, bastando um simples contato direto, como na higienização mútua, ou indireto, através de camas , comedouros ou bebedouros coletivos, para que ocorra a contaminação. Pode ocorrer, também , pela exposição à urina, fezes, sangue ou pela via transplacentária (gata contaminada para o feto através da placenta). 

A imunossupressão é a mais frequente e devastadora manifestação clínica em animais portadores da doença, aumentando a susceptibilidade a infecções bacterianas , fúngicas , protozoarianas e a outras infecções virais como a Peritonite Infecciosa Felina (PIF). A sintomatologia mais comumente observada é a presença de secreção nasal e ocular, sendo também, muito comum, a ocorrência de diarréia, doença periodontal, otites e neuropatias. Outras manifestações de caráter degenerativo muito comuns, assim como a imunossupressão, são a infertilidade, nefropatias e anemias. Também comum em animais portadores de leucemia felina, as doenças caracterizadas como proliferativas tornam o prognóstico bastante desfavorável. Entre as mais comuns se encontram o linfoma e o fibrossarcoma, consideradas como neoplasias malignas relacionadas ao comportamento oncogênico do vírus. A maioria dos felinos vem a óbito antes de completar o segundo ano de vida , e aqueles que sobrevivem frequentemente manifestam tais neoplasias.

Também não existe cura para a leucemia viral felina, e o prognóstico dos animais portadores desta doença é desfavorável, já que, conforme mencionado anteriormente, aqueles que sobrevivem às infecções oportunistas, geralmente manifestam neoplasias posteriormente. Entretanto ao ser diagnosticada, o animal deve receber cuidados que previnam a ocorrência de tais infecções. Uma vez instalada a doença com suas manifestações clínicas, recomenda-se, também, tratamento de suporte, como a reidratação e a correção da desnutrição, a ser determinado pelo médico veterinário. O método ideal de controle da FeLV consiste em evitar o contato direto ou indireto de animais infectados com os não infectados, devendo ser, estes últimos, submetidos à avaliações clínicas e laboratoriais, de acordo com determinação médica, para possibilitar diagnóstico precoce, em caso de contaminação.


A prevalência de FIV e FeLV, pode ser considerada alta entre a população felina mundial, não sendo diferente entre os gatos brasileiros. Portanto a introdução de um animal em um gatil deve ser sempre precedida pela realização de testes sorológicos para detecção de retroviroses, como meio de controlar a disseminação destas doenças, principalmente FeLV. O contato com gatos de rua deve ser sempre evitado e a realização destes testes deve ser considerada em felinos que manifestem sintomas de imunodeficiência e de infecções oportunistas. A vacinação seria o método ideal de controle , entretanto devido à grande capacidade de mutação dos lentivirus , a elaboração de vacinas contra FIV, torna-se difícil, não existindo disponibilidade no mercado. No caso de FeLV , é possível e recomendável a imunização de gatos soronegativos com alto risco de exposição ao vírus ( animais de rua , domiciliares com acesso à rua e gatis) , utilizando vacinas disponíveis em consultórios e clínicas veterinárias.




Gatil ( fonte de contaminação por Retrovírus)

Vários animais com acesso á rua (fonte de contaminação por  Retrovírus)

Estomatite (comum em FIV)
                       
                                                                                          Sarcoma por injeção (comum em FeLV)






sábado, 1 de outubro de 2011

Leishmaniose Canina

A leishmaniose é uma doença provocada por um protozoário do gênero Leishmania que , de acordo com sua espécie, pode produzir manifestações cutâneas , mucocutâneas , cutâneas difusas e viscerais. Tal microorganismo é classificado em dois grandes grupos, sendo um deles o causador da  leishmaniose tegumentar e o outro da leishmaniose visceral.

Dentre as espécies de Leishmania , quatro delas possuem maior importância no Brasil devido à sua maior distribuição em todo o país. Três delas, as espécies Leishmania braziliensis , Leishmania amazonensis e Leishmania guyanensis são as mais comumente observadas como causadoras da leishmaniose tegumentar americana. Esta é considerada uma das endemias de maior importância em saúde pública no Brasil, devido a sua ampla distribuição pelo território nacional, a ocorrência de formas clínicas graves e pelas dificuldades referentes  ao seu diagnóstico e tratamento.


A Leishmania chagasi é o agente etiológico causador da leishmaniose visceral no Brasil. Popularmente conhecida como Calazar, até alguns anos atrás,  era considerada como doença própria de ambientes silvestres e rurais. No entanto, sua prevalência vem aumentando no país, tanto no número de casos como também na dispersão geográfica da doença. Possui nos cães o seu principal reservatório, quando fora do ambiente silvestre, e a infecção no homem normalmente  é precedida por casos caninos. Do ponto de vista epidemiológico, portanto, a leishmaniose em cães é considerada mais importante do que em humanos, pois, além de ser mais prevalente, apresenta grande contingente de animais infectados com parasitismo cutâneo, que servem como fonte de infecção para os insetos vetores, sendo um importante elo na transmissão da doença para o homem.


Trata-se de uma doença que ocorre em 18 dos 27 estados brasileiros, e estima-se que, nas áreas endêmicas , a prevalência de leishmaniose se apresente em torno de 20 a 40% da população canina, sendo este um número alarmante e que a torna uma das doenças mais importantes na rotina clínica veterinária, não só por sua gravidade e letalidade para cães, mas também por se tratar de uma antropozoonose (doença em animais que acomete o homem).


A principal forma de transmissão ocorre através da picada do inseto vetor ou flebótomo Lutzomyia longipalpis, que se infecta quando realiza repasto sanguíneo em um animal ou homem infectado, ingerindo o parasita presente na derme e transmitindo-o em seu próximo repasto. Popularmente conhecido como "mosquito-palha", é menor do que os pernilongos comuns e possui coloração amarela, cor de areia, parecida com a palha de milho. Possui hábitos matinais e vespertinos, ou seja, sai para se alimentar de manhã bem cedo e ao entardecer, e costuma se reproduzir em locais com matéria orgânica em decomposição. Existem relatos na literatura sobre a transmissão da doença na ausência do vetor, sendo descrita a transmissão vertical ( da mãe para o feto através da placenta) , transmissão venérea unidirecional de macho para fêmea (machos infectados transmitem para fêmeas durante cópula) , por transfusão sanguínea e transmissão por artrópodes não-flebotomíneos ( picada de pulgas e carrapatos).


No cão, o período de incubação médio da doença é superior a quatro meses, porém com variações neste período de 2 meses até 6 anos. Em geral os primeiros anticorpos são observados em 45 dias após a infecção. Cães com Leishmaniose podem ser assintomáticos, oligossintomáticos (apresentando apenas alguns sintomas) ou sintomáticos. Estima-se que 50% dos cães infectados sejam assintomáticos, o que sugere a existência de animais resistentes ou com infecção recente nessa população. Os sintomáticos podem apresentar emagrecimento, prostração e perda do apetite. São comumente observadas alterações dermatológicas como dermatite seborreica, alopécia periorbital (falha de pêlo ao redor dos olhos) e onicogrifose (crescimento exacerbado das unhas). Observa-se também com grande frequência  sinais  como a linfadenomegalia (aumento de tamanho dos gânglios), hepatoesplenomegalia (aumento de tamanho de fígado e baço) , pneumonia , diarréia , insuficiência renal crônica , anemia , hemorragias , neuropatias como  encefalite e meningite , poliartrites e alterações oculares como conjuntivite.


Com relação à leishmaniose visceral humana, observa-se que a maioria dos indivíduos permanece assintomática, caracterizando-se apenas como portadores de uma infecção subclínica. Aqueles que desenvolvem a doença apresentam inicialmente quadro febril, geralmente diário, acompanhado de aumento do volume abdominal, em decorrência da hepatoesplenomegalia. As vísceras atingirão volumes de grandes proporções, principalmente o baço, se o paciente não for tratado. Haverá ainda perda de peso, perda do apetite e palidez mucocutânea.


Existem relatos de leishmaniose visceral em felinos principalmente nas regiões consideradas endêmicas. Apesar da ocorrência de infecções esporádicas, a espécie felina não é considerada, até o momento, reservatório importante da doença. São pouco conhecidas a prevalência, a transmissão e o quadro clínico da enfermidade nessa espécie que normalmente é inespecífico e se assemelha aos sintomas observados na espécie canina. Evidências apontam que a leishmaniose felina pode estar associada a doenças imunossupressoras, tais como a leucemia (FeLV) e imunodeficiência viral felina (FIV).


A leishmaniose visceral canina é uma doença de difícil diagnóstico, sendo necessário muitas das vezes a realização de vários exames, bem como sua repetição. Os informes clínicos, principalmente em pacientes sintomáticos são bastante relevantes, entretanto devem ser complementados com exame sorológico , parasitológico , hemograma, proteinograma e provas de função renal e hepática.


As medidas adotadas na prevenção da leishmaniose canina devem ser baseadas no controle do vetor (mosquito) , através de borrifação de inseticidas nas áreas intra e peridomiciliar. No cão, o uso de coleira a base de Deltametrina e produtos tópicos com ação repelente do mosquito devem ser considerados. Realizar limpeza frequente dos locais de acúmulo de matéria orgânica como canis,  galinheiros, viveiros e gaiolas de pássaros , quintais com árvores ou jardins e lotes vagos. Devem ser evitados passeios com o cão em horários de repasto sanguíneo do mosquito (entre 6:00 e 7:00 e 18:00 e 19:00), lembrando-se dos períodos de horário de verão existente em alguns estados. A proteção imunológica possui, atualmente, enorme representatividade na prevenção da doença em cães, devendo ser considerada a vacinação do animal, já que existem vacinas contra Leishmaniose disponíveis no mercado.


A eutanásia de cães soropositivos é recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde), entretanto a própria entidade reconhece o grande valor afetivo, econômico e prático destes animais, na grande maioria das vezes, não podendo ser eliminados indiscriminadamente. Outro fator importante está relacionado à ineficácia do extermínio destes cães no controle da doença, e um dos fatores para tal se relaciona ao método de exame adotado, que em diversas situações gera resultados falso-positivos. A eliminação do vetor é necessariamente o método mais eficaz na prevenção da Leishmaniose visceral. Portanto todo e qualquer animal que manifeste sintomas de leishmaniose deve ser encaminhado aos cuidados do profissional médico veterinário que irá orientar e adotar condutas que melhor convierem ao bem-estar de seu paciente , das pessoas que convivem com ele e da população de um modo geral.



                                                
Lutzomyia longipalpis (foto)

                                                    
Lutzomyia longipalpis (desenho)



                                                                                                                 
                                                   
Alopécia (falha de pêlo) em orelha  de cão                                                   Lesões perioculares em cão