quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Verme do coração

O chamado "Verme do coração", é um parasito da classe Nematoda ,  espécie Dirofilaria immitis e agente causador da Dirofilariose canina. Tal patologia pode ser apontada como uma importante causa de cardiopatia adquirida em cães, devido ao comprometimento do coração e das artérias pulmonares, causado pelo alojamento da forma adulta deste verme nestes locais. Embora seja uma doença que acomete principalmente cães, pode ocorrer em felinos e ocasionalmente humanos, sendo considerada, portanto uma zoonose.

Dirofilaria immitis na fase adulta se alojam nas artérias pulmonares e ventrículo direito, conforme dito anteriormente, e podem medir entre 15 e 30 cm de comprimento, sendo as fêmeas maiores do que os machos. O ciclo de vida destes nematóides é considerado longo ( pode durar 6 meses após a infecção) e inclui a passagem obrigatória por hospedeiros intermediários ou vetores , que são os mosquitos da família Culicidae. Existem aproximadamente 70 espécies dos gêneros Aedes, Anopheles e Culex receptivas à infecção pelo parasita, ainda que a capacidade de transmissão tenha sido demonstrada em menos de 12 espécies. A única forma de transmissão natural é através  da picada destes insetos , que ao se alimentarem do sangue de indivíduos portadores se infectam com as larvas do parasito, e a transmitem a um novo hospedeiro.

Larvas de D. immitis , também denominadas microfilárias , passam por cinco fases, desenvolvendo-se tanto no hospedeiro intermediário (mosquito) como no hospedeiro definitivo (cão). Da primeira à terceira fase ( L1 , L2 e L3) as larvas realizam seu desenvolvimento no interior do mosquito infectado, que durante o repasto sanguíneo a transmitem ao cão na fase 3 (L3). Esta  é denominada larva infectante e é depositada na pele do hospedeiro por onde penetra no local da inoculação. Após sua penetração, realizam uma migração subcutânea em direção ao tórax, evoluindo da terceira para quarta fase (L3 para L4). Ao término de aproximadamente 60 dias, sofrem a quarta e última muda para L5 ou adultos imaturos , que em também, aproximadamente 60 dias, atingem sua maturidade sexual, se reproduzindo e reiniciando seu ciclo.


Vários fatores influenciam a frequência desta infecção na população canina, já que o desenvolvimento do vetor (mosquito) e do parasito são influenciados pelo ambiente, merecendo destaque o clima quente. A vegetação local,  abundância de vetores susceptíveis, presença de cães portadores e alta densidade populacional canina, também são fatores predisponentes. Apesar de sua ampla distribuição por todo o globo terrestre, as prevalências mais elevadas encontram-se na América do Sul (incluindo o Brasil), América Central e Caraíbas. No Brasil , assim como em outros países, as regiões costeiras tropicais ou subtropicais são as mais prevalentes, o que não exclui a possibilidade de haver áreas longe do litoral aonde a doença possa ocorrer. 


A maioria dos portadores é assintomática, e uma vez diagnosticada , normalmente em exames de rotina, recomenda-se um teste anual para microfilaremia ( presença de larvas no sangue). Pacientes com a doença oculta ou aqueles que não são testados rotineiramente são mais propensos a exibir sinais clínicos. Os sintomas mais comumente observados são dificuldade respiratória durante exercício, fadiga , síncope (desmaio súbito) , tosse , sangramento nasal, perda de peso e/ou sinais de insuficiência cardíaca congestiva direita (aumento de volume de órgãos abdominais por exemplo).


Ao ter a dirofilariose diagnosticada , o paciente deverá receber tratamento microfilaricida, sob prescrição do profissional médico veterinário. Entretanto a prevenção da doença é importante, uma vez que trata-se de uma doença grave e "silenciosa". Animais residentes em áreas endêmicas, como cidades litorâneas, devem receber tratamento profilático com frequência a ser determinada pelo veterinário e mediante testes periódicos de detecção da doença. Aqueles residentes em cidades não consideradas endêmicas, devem realizar tratamento profilático, principalmente por ocasião de viagens a regiões litorâneas, devendo ser adotado nestes casos medidas que evitem o contato com o mosquito e que eliminem o agente etiológico antes da progressão da doença.


Dirofilaria immitis alojadas no coração



Mosquito da família Culicidae



Cães na praia

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Verminoses intestinais

A prevalência de verminoses intestinais em cães e gatos pode ser considerada elevada, sendo os animais jovens aqueles que apresentam maior susceptibilidade e manifestações clínicas mais severas. A ação espoliativa de helmintos (vermes) , se reflete em perda do apetite , emagrecimento, diarréia , vômito e retardo no crescimento, além da imunossupressão orgânica que contribui para o aparecimento de patologias de natureza infecciosa.

Os animais domésticos desempenham o papel de hospedeiro definitivo para algumas espécies de vermes, podendo causar enfermidades importantes para seres humanos. O contato direto ou indireto de pessoas com cães e gatos aumenta o risco de infestações, especialmente em crianças , se não houver cuidados específicos com a prevenção e o tratamento das verminoses nestes animais.

Dentre os parasitas do trato alimentar de cães e gatos , alguns merecem maior destaque devido à frequência de infestação e importância que desempenham na saúde destas espécies, além de se caracterizarem como zoonose, já que podem estabelecer doença em humanos, representando assim um problema de saúde pública. As classes mais importantes são representadas pelos Nematódeos , Ancilóstomos e Tênias.

Nematódeos são muito comuns em cães ( Toxocara canis e Toxascaris leonina) e em gatos ( Toxocara cati e Toxascaris leonina). A principal forma de transmissão ocorre a partir da ingestão dos ovos diretamente ou pela ingestão de hospedeiros intermediários (roedores por exemplo). O T. canis é também, frequentemente transmitido por via transplacentária da mãe para o feto e o T. cati por via transmamaria durante a lactação de felinos recém nascidos. Estes parasitas, durante a fase adulta, vivem na luz do intestino delgado, e suas larvas podem penetrar pela mucosa intestinal e migrarem para outros tecidos do organismo , como o fígado e pulmões , gerando lesões significativas nestes órgãos. Os sinais clínicos mais comumente observados constituem de diarréia e retardo no crescimento. Grandes infestações podem causar obstrução intestinal, principalmente em filhotes. T. canis e T. cati são responsáveis pela transmissão a seres humanos da Larva migrans visceral. Esta condição é  uma infestação helmíntica bastante comum em pessoas, e ocorre devido à penetração da larva destes nematódeos através da pele, que migra pela circulação até o miocárdio (coração) e o sistema nervoso central. Se houver migração para o globo ocular é denominada Larva migrans ocular.

Ancilóstomos ( Ancylostoma sp e Uncinaria sp) são mais comum em cães do que em gatos, e a infecção ocorre pela ingestão dos ovos ou através da lactação. Vermes adultos vivem na luz do intestino delgado, onde se prendem, se alimentando de mucosa e sangue. Desta forma a sintomatologia mais comum é a presença de sangue nas fezes (melena), além da diarréia, podendo levar a óbito, principalmente hospedeiros jovens, gravemente infectados. Em cães adultos esta helmintose pode predispor ao aparecimento de outras infecções intestinais. Esta classe de helmintos é responsável por outra importante zoonose conhecida popularmente como "bicho geográfico". Larvas de ancilóstomos denominadas Larva migrans cutanea penetram superficialmente a pele humana formando "túneis" de aspecto tortuoso que fazem lembrar um mapa geográfico. Sua penetração provoca uma inflamação local (dermatite) que irá tornar o local avermelhado devido à irritação da pele (eritema). 

Tênias infectam cães e gatos sendo a mais comum o Dipylidium caninum. Sua infecção ocorre pela ingestão de fragmentos denominados proglotes, junto às fezes ou na região perianal. Pode se contaminar , também, ao ingerir pulgas  acidentalmente durante prurido (coceira). Este ectoparasita está presente no ciclo desta classe de helmintos como hospedeiro intermediário infectado. Os sinais clínicos mais comuns em animais parasitados consiste de prurido anal associado a liberação de segmentos móveis do verme (proglotes) que se movem na região do períneo. Pode ocorrer declínio sutil da condição corporal do indivíduo parasitado, e não há relevância quanto à infecção em seres humanos.

Medidas de prevenção e controle das infecções helmínticas devem ser adotadas, sendo fundamental a intervenção do profissional médico veterinário, para que se otimize os resultados, de forma a , não apenas, proteger a saúde e o bem estar de cães e gatos, como também da população humana que convive com estes animais em seu dia a dia. É necessário a introdução de um programa de vermifugação em filhotes a partir de 20 dias de idade, com repetição trimestral, quadrimestral ou semestral, de acordo com a idade e hábitos de vida daquele animal. Vermífugos disponíveis no mercado possuem ação adulticida (elimina vermes adultos) apenas, não atingindo outros estágios dos vermes, como larvas por exemplo. Torna-se então,  necessário a revermifugação entre 15 e 30 dias após a administração da 1ª dose do vermífugo, para que se elimine todos os estágios do parasita existentes no intestino, de acordo com seu ciclo de vida. Medidas de higiene como limpeza frequente de locais utilizados como sanitário de cães e gatos, controle de hospedeiros intermediários (pulgas e roedores) , tratamento a base de anti-helmínticos dos indivíduos parasitados e manejo adequado do modo de vida de animais de estimação, priorizando o uso de rações comerciais e evitando acesso á rua, são também importantes no controle das verminoses.




Toxocara canis


                                             
             Ancylostoma caninum                                                            Larva migrans cutanea



Dipylidium caninum

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Hipertensão

A hipertensão sistêmica é o aumento da pressão arterial sanguínea sendo uma das causas mais comuns de morbidade e mortalidade na medicina humana. Na medicina veterinária, ainda não é frequentemente diagnosticada, já que a aferição da pressão arterial não é realizada na rotina clínica diária, embora este quadro esteja mudando, uma vez que já existem novas técnicas que permitem um diagnóstico rápido e eficaz na determinação das pressões sistólica e diastólica da pressão sanguínea.

Como conceito básico de pressão sanguínea, descreve-se que trata-se da pressão do sangue exercida  sobre a parede dos vasos sanguíneos, e qualquer alteração que envolva de alguma forma os mecanismos circulatórios podem altera-la. A relação entre a quantidade de sangue bombeado pelo coração em determinada fração de tempo (débito cardíaco) e a força que um vaso sanguíneo tende a suportar (resistência vascular periférica) é o "pilar de sustentação" da pressão sanguínea, sendo o equilíbrio desta relação o fator determinante para uma condição de normalidade. Distúrbios direta ou indiretamente causadores da perda deste equilíbrio podem culminar com o aumento da pressão do sangue sobre os vasos, tornando o indivíduo hipertenso.

A Hipertensão arterial é classificada em primária e secundária. A primária é idiopática, ou seja de causa desconhecida, representando 95% dos casos em seres humanos. Cães e gatos são mais comumente acometidos pela hipertensão secundária. Esta é assim denominada por se caracterizar pela pré existência de um fator primário como agente etiológico, e sua detecção prévia  pode determinar um controle adequado e até precoce da moléstia.

Estudos revelam que alguns animais apresentam doença clínica evidente causada pela hipertensão. Em outras situações o paciente está hipertenso mas ainda não manifestou evidências das condições patológicas relacionadas, sendo considerada assim, uma doença silenciosa. Fatores como idade e raça influenciam na alteração da pressão sanguínea de cães e gatos.

Algumas doenças estão relacionadas à hipertensão, sendo diretamente envolvidas com seu diagnóstico, tratamento e prognóstico. Dentre as diversas patologias, a doença renal é a de maior destaque em medicina veterinária, por ser a causa mais comum de hipertensão em pequenos animais. Doenças hormonais como hipotireoidismo, hiperadrenocorticismo e diabetes melitus, além de cardiopatias, doenças hepáticas, anemia e obesidade são comumente observadas no paciente hipertenso, merecendo, assim serem destacadas como eventuais causadoras da moléstia.


Quanto às consequências da hipertensão, é importante ressaltar que o aumento da pressão de perfusão pode lesar os leitos capilares que irrigam os tecidos. Esta lesão provoca uma queda da oxigenação destes vasos, denominada hipóxia capilar, com consequente lesão tecidual, o que irá resultar em disfunções orgânicas e levar a diversos efeitos patológicos. Pacientes hipertensos estão frequentemente sujeitos a complicações oculares , como glaucoma e descolamento de retina,  complicações neurológicas , como o acidente vascular encefálico e complicações renais , como a doença renal crônica levando à insuficiência renal. Por serem estes os órgãos mais comumente afetados na hipertensão arterial, alterações como cegueira , convulsões ou poliúria/polidipsia (urina muito/possui muita sede) são constantemente observados em pacientes que terão como diagnóstico definitivo a hipertensão sistêmica.


O diagnóstico definitivo consiste na mensuração da pressão sanguínea feita através de mais de uma aferição, devendo haver comparação entre os resultados para avaliar a precisão. Deve ser realizada em ambiente tranquilo para o animal, sendo recomendado em todos os pacientes com condições clínicas associadas às doenças, que predispõem à hipertensão. Ao se determinar o critério de avaliação da pressão arterial de cães e gatos, pode ser adotado o protocolo de três mensurações com valores acima de 150/95 mmHg em cães assintomáticos para detectar a ocorrência da hipertensão. Em pacientes sintomáticos, basta uma única mensuração com resultados acima deste valor.


Atualmente o método mais fácil e menos invasivo de se obter os valores de pressão arterial sistêmica na medicina veterinária, é denominado mensuração indireta. Esta pode ser realizada através do ultra-som doppler (Fig.1) ou pelo método oscilométrico (Fig 2) , que oferecem uma confiabilidade satisfatória quanto aos seus resultados. A mensuração direta possui enorme precisão, porém apresenta dificuldades quanto à sua realização devido à necessidade de cateterização do paciente, sendo frequentemente utilizada durante monitoração transcirúrgica.


O tratamento deve ser iniciado logo que se diagnostique a hipertensão, e é baseado no uso de anti-hipertensivos. Este é direcionado para a obtenção de um menor volume de sangue circulante associado à vasodilatação , e o sucesso da terapia vai depender da tendência dos mecanismos homeostáticos interagirem com a droga para restabelecer a pressão normal.

Artigo(s) recomendado(s): 




Fig1: Mensuração da pressão em felino pelo método Ultra-som Doppler

Fig 2: Mensuração da pressão arterial em cão pelo método Oscilométrico



terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ectoparasitos ( pulgas e carrapatos )


Alguns artrópodes podem viver como ectoparasitos sobre os animais colocando sua saúde em risco. Sua maioria promove ação irritante e/ou espoliativa sobre o hospedeiro , além de transmitir doenças infecciosas e parasitárias. Dentre os mais comumente observados se encontram o Ctenocephalides sp (Pulga) e o Rhipicephalus sanguineus (Carrapato) , que constituem as espécies predominantes de ectoparasitos em animais urbanos,  tanto domiciliados quanto errantes, desempenhando assim importância relevante  na saúde e no bem-estar de cães e gatos.


  • Pulga ( Ctenocephalides sp )
Pulgas são artrópodes da classe Insecta, hematófagos (se alimentam de sangue) de tamanho pequeno , cor castanho-escura , desprovidos de asa e com três pares de patas, sendo o último par desenvolvido para saltos.  Embora existam mais de 2.000 espécies e sub-espécies no mundo, a Ctenocephalides canis e Ctenocephalides felis  são as espécies mais comuns em cães e gatos, sendo a segunda mais amplamente disseminada e portanto a dominante em ambos.


Após se alimentar do sangue de um hospedeiro, uma fêmea pode depositar de 20 a 40 ovos por vez, durante um período de 21 dias, que por sua vez irão cair imediatamente, contaminando o ambiente. Sabe-se que uma pulga pode depositar cerca de 2000 ovos em toda a sua vida. Destes ovos, que constituem 50% de infestação em um ambiente contaminado, nascem as larvas em 1 a 10 dias , dependendo do clima. Estas se alimentam de detritos orgânicos e fezes das próprias pulgas, e possuem características negativamente fototáxicas (fogem da luz) e positivamente geotrópicas (se movem para baixo) , o que as faz se moverem para o fundo de fibras de tapete, colchão e sofá. Este estágio dura entre 5 a 11 dias, também de acordo com as condições climáticas e com a disponibilidade de alimento, e representa 35% da infestação de um ambiente. Após período de até 11 dias, formam-se casulos dentro dos quais ocorre a formação da pupa, que em condições ambientais adequadas podem se transformar em pulgas adultas em apenas 5 dias, podendo entretanto, em condições desfavoráveis, como a ausência de alimento no local, permanecerem no casulo por até 140 dias. Esta fase representa 10% da infestação em um ambiente contaminado. Pulgas recém-emergidas de seus casulos são atraídas aos seus hospedeiros por estímulos como a produção de calor e a realização de movimentos, iniciando  o repasto sanguíneo imediatamente e produzindo ovos após 48 horas. Pode sobreviver por até 3 semanas sem se alimentar e representa apenas 5% da infestação de um ambiente. Normalmente, sem intervenção na infestação, o ciclo de vida de uma pulga se completa em 3 a 4 semanas.


A infestação por pulgas pode gerar algumas alterações na saúde de cães e gatos. A saliva possui ação anti-coagulante. Assim, sua liberação , necessária durante a alimentação deste parasito, expõe seu hospedeiro a outras substâncias químicas presentes, causando irritação e prurido (coceira), em maior ou menor grau de acordo com o indivíduo parasitado. Alguns destes são hipersensíveis à saliva da pulga, chegando a manifestarem reações alérgicas intensas, que geram prurido excessivo , podendo haver até auto-mutilação, e consequente infecção de pele. Além disso, o parasito é hospedeiro de um  endoparasito interno (verme) denominado Dipylidium caninum, comum em cães, sendo assim co-responsável pela infestação e manifestação desta verminose nesta espécie. Grandes infestações por pulgas, também podem provocar anemia, pelo hábito alimentar hematófago do parasito, principalmente em filhotes. Felinos são eventualmente acometidos por um parasita de hemácias, denominado Haemobartonella, causador da hemobartonelose, que possui em um de seus meios de transmissão a picada de pulga infectada. Não é comum a ocorrência de enfermidades em seres humanos quanto à infestação por pulgas.


Tendo em vista que 95% das pulgas de um determinado ambiente, se apresenta em forma de ovo , larva ou pupa, e que estes estágios do parasito  se encontram fora do hospedeiro, tem-se no tratamento ambiental a base do controle das infestações. Entretanto a dedetização contra pulgas nem sempre é eficaz, levando-se em consideração as variações em seu ciclo. Aplicações inseticidas somente eliminarão as larvas e as pulgas adultas, sendo importante as reaplicações, que podem ser necessárias durante um período de até 9 meses, para que todas as larvas ecludam de seus ovos e todas as pulgas emerjam de suas pupas, podendo assim serem atingidas. Um método bastante recomendável é a limpeza mecânica, sendo muito útil o aspirador de pó, a ser aplicado nas frestas dos pisos, tapetes e carpetes e cantos de sofás. Existem no mercado diversos tipos de medicamentos, com inúmeras formas de atuação, tanto de uso tópico quanto oral, utilizados na prevenção e no tratamento das infestações por pulgas, devendo o profissional médico veterinário ser consultado para devida orientação.




Ctenocephalides sp

Pulgas no pêlo
                     

    
                                         


  • Carrapato
No Brasil há diversas espécies deste parasito frequentemente observados em animais. A  de maior destaque, devido à sua grande prevalência, é denominada Rhipicephalus sanguineus, e trata-se de um artrópode da classe Arachnida , hematófago, de cor marrom e tamanho que pode chegar a 11mm no caso de fêmeas recém-alimentadas (fêmea ingurgitada ou teleógena). É observada com grande frequência em cães urbanos, sendo descrita na literatura como uma das principais espécies de parasitos destes animais domésticos.

O R. sanguineus passa por quatro estágios em seu ciclo de vida: ovo, larva , ninfa e adulto. A larva eclode do ovo e se alimenta no hospedeiro por alguns dias, quando então faz uma "troca de pele" no ambiente, denominada ecdise, se transformando em ninfa. Caso a larva não encontre alimento, pode sobreviver por até mais de 500 dias. A ninfa também se alimenta por alguns dias, podendo, no entanto, sobreviver por até 180 dias sem se alimentar. Realiza nova ecdise, também fora do hospedeiro e evolui para o estágio adulto. Neste estágio, os carrapatos machos e fêmeas se alimentam de sangue do indivíduo parasitado por aproximadamente 4 dias, copulando em seguida. Após a alimentação, uma fêmea pode tornar-se ingurgitada entre 6 e 50 dias, e realizar uma única postura, que pode durar até 29 dias, morrendo em seguida. São depositados aproximadamente 2000 ovos , que eclodem no ambiente em 4 dias. O carrapato adulto é muito resistente podendo sobreviver por até 580 dias sem a presença do hospedeiro. Esta espécie de carrapato possui hábito nidícola, ou seja vive no abrigo de seu hospedeiro, e quando não estão parasitando , ficam escondidos em frestas e buracos existentes no ambiente habitado pelo cão. Desta forma, todo o ciclo ocorre neste local, e uma vez detectada a presença de um cão pelo carrapato, este sai ativamente de seu esconderijo e vai de encontro ao animal para se alimentar. Ao final de um repasto sanguíneo (alimentação),  os carrapatos se desprendem indo a procura de um local para se esconder. O que se observa é um comportamento de "caminhar para cima", sendo muito comum a visualização de carrapatos subindo pela parede a fim de se abrigarem em locais altos.


Por exercerem a hematofagia durante o parasitismo, os carrapatos comportam-se como vetores de alguns importantes patógenos. O R. sanguineus é o vetor natural da Babesia canis e da Erlichia canis, agentes etiológicos da babesiose e da erlichiose canina respectivamente, ambas consideradas graves, podendo ocasionar óbito, principalmente em casos diagnosticados tardiamente. A espoliação do hospedeiro nas grandes infestações, e irritação no local de fixação do carrapato na pele, são alterações relevantes. Estudos recentes revelam o potencial de transmissão de leishmaniose canina, através da picadura do carrapato. 


Considera-se que , baseado no ciclo de vida do R. sanguineus , apenas 5% da população deste carrapato esteja em parasitose. Os outros 95% se encontram no ambiente, nas fases de vida livre. Em função disto, o tratamento carrapaticida no hospedeiro surte pouco ou nenhum efeito, sendo necessário o controle da população de carrapatos no ambiente. A dedetização ambiental é viável somente quando o cão vive no interior da residência , ou em sua área externa com canis ou casinhas como abrigo , cuja área total pode ser dedetizada. Em geral, três a quatro aplicações de produtos adequados para este fim, com intervalos quinzenais podem ser suficientes para eliminar infestações. Uma observação importante, é que a aplicação do produto só será  eficiente se realizada no alto das paredes , telhados de casinhas ou alto de muros, devido ao comportamento de "caminhar para cima", já mencionado anteriormente. As infestações pelo R. sanguineus podem ocorrer também na residência vizinha, o que torna necessário uma ação conjunta a ser tomada simultaneamente quando vizinhos possuam cães infestados por carrapatos, já que estes parasitos compõem uma única população que parasita diferentes hospedeiros em casas próximas. Em algumas situações , é inviável a dedetização diretamente no local onde vive o cão, como em grandes quintais ou no interior de algumas casas ou apartamentos. Neste caso deve ser adotado o uso de produtos de ação preventiva no próprio animal. Estes produtos devem ser utilizados com base em seu período de ação, devendo ser reaplicados sempre ao término deste tempo, para que se obtenha uma grande quantidade de carrapatos em contato com o produto, impedindo o fechamento de seu ciclo de vida. A orientação veterinária é de fundamental importância para a adoção de técnicas e fármacos direcionados para o controle adequado da infestação por carrapatos.


                                                                                                 
Riphicephalus sanguineus
                                                                                                                                     
Fêmea depositando os ovos

Estágios do carrapato



                  


sábado, 15 de outubro de 2011

AIDS Felina

A síndrome da imunodeficiência adquirida em felinos (FAIDS) é induzida por um vírus da família Retroviridae (Retrovírus) de duas subfamílias : o vírus da imunodeficiência felina (FIV) que pertence à subfamília Lentivirinae e o vírus da leucemia felina (FeLV) pertencente à subfamília Oncovirinae. Ambos são considerados como os mais importantes agentes etiológicos de doenças virais em gatos, pois afetam o sistema imunológico , levando a alta morbidade e mortalidade em seus hospedeiros. A infecção por FIV e FeLV possui prevalência alta na população felina, e é frequentemente diagnosticada em gatos domésticos de todo mundo. Embora possuam características semelhantes quanto ao potencial imunossupressor e possam acometer um felino concomitantemente, devem ser abordadas de forma distinta, devido às peculiaridades individuais de cada uma delas.

  • FIV 
A Imunodeficiência felina é uma doença causada por um lentivirus que pode estabelecer infecção persistente em gatos domésticos. O vírus é  transmitido mais comumente por meio de mordeduras ocorridas durante brigas, sendo inoculado através de ferimentos, o que faz dos machos de vida livre o grupo de maior risco de contágio.  Gatas acometidas durante a gestação podem transmitir a doença ao feto ou filhote , e outro meio de transmissão ocorre por transfusões de sangue contaminado pelo vírus.

Pode ser caracterizada em cinco estágios , com base nos sinais clínicos observados. O estágio I ou fase aguda pode durar semanas ou meses, e se caracterizar pela ausência de sinais clínicos ou por sintomatologia inespecífica como febre, prostração, diarréia e infecções respiratórias. No estágio II os animais acometidos podem permanecer assintomáticos durante longo período de tempo (6 anos em média). O estágio III se caracteriza por linfoadenomegalia (aumento generalizado dos linfonodos) , e pode durar meses. O estágio IV, denominado Complexo relacionado à AIDS (ARC) , se caracteriza pelo aparecimento das alterações de natureza crônica, como infecções dermatológicas , respiratórias ou entéricas, sendo as gengivites, estomatites e periodontites os achados clínicos mais comuns ,  e podendo durar meses a anos. O estágio V também denominado fase terminal da doença ou síndrome da imunodeficiência adquirida felina (FAIDS), é progressiva e fatal, podendo durar meses e levando o portador à enfermidades relacionadas à imunossupressão e à insuficiência renal crônica.

Trata-se de uma doença sem cura, entretanto possui um prognóstico reservado, já que um animal portador de FIV pode viver por muitos anos sem manifestar sintomas clínicos graves. Medidas profiláticas devem ser adotadas e cuidados com a saúde do felino portador são de fundamental importância. Uma vez diagnosticada a doença, o animal deve ser submetido a acompanhamento médico veterinário frequente, já que tem-se na prevenção e na cura das infecções oportunistas a base de seu tratamento. Devem ser submetidos a consultas de rotina , com avaliações laboratoriais e controle do peso. Além disso, a restrição do gato portador a ambientes externos, evita a contaminação de outros felinos , bem como a preservação de sua saúde evitando o aparecimento de enfermidades secundárias.


  • FeLV
A Leucemia felina é causada por um retrovírus oncogênico e infecta gatos de todo o mundo, estando associada tanto a doenças neoplásicas quanto não neoplásicas e imunossupressoras. A incidência desta infecção está diretamente relacionada à densidade populacional, já que é facilmente transmitida pelo contato oronasal, tornando a doença altamente contagiosa entre gatos que convivem em grupos, principalmente os filhotes. Esta transmissão ocorre principalmente pela saliva, não sendo necessário a existência de ferimentos, como na FIV, bastando um simples contato direto, como na higienização mútua, ou indireto, através de camas , comedouros ou bebedouros coletivos, para que ocorra a contaminação. Pode ocorrer, também , pela exposição à urina, fezes, sangue ou pela via transplacentária (gata contaminada para o feto através da placenta). 

A imunossupressão é a mais frequente e devastadora manifestação clínica em animais portadores da doença, aumentando a susceptibilidade a infecções bacterianas , fúngicas , protozoarianas e a outras infecções virais como a Peritonite Infecciosa Felina (PIF). A sintomatologia mais comumente observada é a presença de secreção nasal e ocular, sendo também, muito comum, a ocorrência de diarréia, doença periodontal, otites e neuropatias. Outras manifestações de caráter degenerativo muito comuns, assim como a imunossupressão, são a infertilidade, nefropatias e anemias. Também comum em animais portadores de leucemia felina, as doenças caracterizadas como proliferativas tornam o prognóstico bastante desfavorável. Entre as mais comuns se encontram o linfoma e o fibrossarcoma, consideradas como neoplasias malignas relacionadas ao comportamento oncogênico do vírus. A maioria dos felinos vem a óbito antes de completar o segundo ano de vida , e aqueles que sobrevivem frequentemente manifestam tais neoplasias.

Também não existe cura para a leucemia viral felina, e o prognóstico dos animais portadores desta doença é desfavorável, já que, conforme mencionado anteriormente, aqueles que sobrevivem às infecções oportunistas, geralmente manifestam neoplasias posteriormente. Entretanto ao ser diagnosticada, o animal deve receber cuidados que previnam a ocorrência de tais infecções. Uma vez instalada a doença com suas manifestações clínicas, recomenda-se, também, tratamento de suporte, como a reidratação e a correção da desnutrição, a ser determinado pelo médico veterinário. O método ideal de controle da FeLV consiste em evitar o contato direto ou indireto de animais infectados com os não infectados, devendo ser, estes últimos, submetidos à avaliações clínicas e laboratoriais, de acordo com determinação médica, para possibilitar diagnóstico precoce, em caso de contaminação.


A prevalência de FIV e FeLV, pode ser considerada alta entre a população felina mundial, não sendo diferente entre os gatos brasileiros. Portanto a introdução de um animal em um gatil deve ser sempre precedida pela realização de testes sorológicos para detecção de retroviroses, como meio de controlar a disseminação destas doenças, principalmente FeLV. O contato com gatos de rua deve ser sempre evitado e a realização destes testes deve ser considerada em felinos que manifestem sintomas de imunodeficiência e de infecções oportunistas. A vacinação seria o método ideal de controle , entretanto devido à grande capacidade de mutação dos lentivirus , a elaboração de vacinas contra FIV, torna-se difícil, não existindo disponibilidade no mercado. No caso de FeLV , é possível e recomendável a imunização de gatos soronegativos com alto risco de exposição ao vírus ( animais de rua , domiciliares com acesso à rua e gatis) , utilizando vacinas disponíveis em consultórios e clínicas veterinárias.




Gatil ( fonte de contaminação por Retrovírus)

Vários animais com acesso á rua (fonte de contaminação por  Retrovírus)

Estomatite (comum em FIV)
                       
                                                                                          Sarcoma por injeção (comum em FeLV)






sábado, 1 de outubro de 2011

Leishmaniose Canina

A leishmaniose é uma doença provocada por um protozoário do gênero Leishmania que , de acordo com sua espécie, pode produzir manifestações cutâneas , mucocutâneas , cutâneas difusas e viscerais. Tal microorganismo é classificado em dois grandes grupos, sendo um deles o causador da  leishmaniose tegumentar e o outro da leishmaniose visceral.

Dentre as espécies de Leishmania , quatro delas possuem maior importância no Brasil devido à sua maior distribuição em todo o país. Três delas, as espécies Leishmania braziliensis , Leishmania amazonensis e Leishmania guyanensis são as mais comumente observadas como causadoras da leishmaniose tegumentar americana. Esta é considerada uma das endemias de maior importância em saúde pública no Brasil, devido a sua ampla distribuição pelo território nacional, a ocorrência de formas clínicas graves e pelas dificuldades referentes  ao seu diagnóstico e tratamento.


A Leishmania chagasi é o agente etiológico causador da leishmaniose visceral no Brasil. Popularmente conhecida como Calazar, até alguns anos atrás,  era considerada como doença própria de ambientes silvestres e rurais. No entanto, sua prevalência vem aumentando no país, tanto no número de casos como também na dispersão geográfica da doença. Possui nos cães o seu principal reservatório, quando fora do ambiente silvestre, e a infecção no homem normalmente  é precedida por casos caninos. Do ponto de vista epidemiológico, portanto, a leishmaniose em cães é considerada mais importante do que em humanos, pois, além de ser mais prevalente, apresenta grande contingente de animais infectados com parasitismo cutâneo, que servem como fonte de infecção para os insetos vetores, sendo um importante elo na transmissão da doença para o homem.


Trata-se de uma doença que ocorre em 18 dos 27 estados brasileiros, e estima-se que, nas áreas endêmicas , a prevalência de leishmaniose se apresente em torno de 20 a 40% da população canina, sendo este um número alarmante e que a torna uma das doenças mais importantes na rotina clínica veterinária, não só por sua gravidade e letalidade para cães, mas também por se tratar de uma antropozoonose (doença em animais que acomete o homem).


A principal forma de transmissão ocorre através da picada do inseto vetor ou flebótomo Lutzomyia longipalpis, que se infecta quando realiza repasto sanguíneo em um animal ou homem infectado, ingerindo o parasita presente na derme e transmitindo-o em seu próximo repasto. Popularmente conhecido como "mosquito-palha", é menor do que os pernilongos comuns e possui coloração amarela, cor de areia, parecida com a palha de milho. Possui hábitos matinais e vespertinos, ou seja, sai para se alimentar de manhã bem cedo e ao entardecer, e costuma se reproduzir em locais com matéria orgânica em decomposição. Existem relatos na literatura sobre a transmissão da doença na ausência do vetor, sendo descrita a transmissão vertical ( da mãe para o feto através da placenta) , transmissão venérea unidirecional de macho para fêmea (machos infectados transmitem para fêmeas durante cópula) , por transfusão sanguínea e transmissão por artrópodes não-flebotomíneos ( picada de pulgas e carrapatos).


No cão, o período de incubação médio da doença é superior a quatro meses, porém com variações neste período de 2 meses até 6 anos. Em geral os primeiros anticorpos são observados em 45 dias após a infecção. Cães com Leishmaniose podem ser assintomáticos, oligossintomáticos (apresentando apenas alguns sintomas) ou sintomáticos. Estima-se que 50% dos cães infectados sejam assintomáticos, o que sugere a existência de animais resistentes ou com infecção recente nessa população. Os sintomáticos podem apresentar emagrecimento, prostração e perda do apetite. São comumente observadas alterações dermatológicas como dermatite seborreica, alopécia periorbital (falha de pêlo ao redor dos olhos) e onicogrifose (crescimento exacerbado das unhas). Observa-se também com grande frequência  sinais  como a linfadenomegalia (aumento de tamanho dos gânglios), hepatoesplenomegalia (aumento de tamanho de fígado e baço) , pneumonia , diarréia , insuficiência renal crônica , anemia , hemorragias , neuropatias como  encefalite e meningite , poliartrites e alterações oculares como conjuntivite.


Com relação à leishmaniose visceral humana, observa-se que a maioria dos indivíduos permanece assintomática, caracterizando-se apenas como portadores de uma infecção subclínica. Aqueles que desenvolvem a doença apresentam inicialmente quadro febril, geralmente diário, acompanhado de aumento do volume abdominal, em decorrência da hepatoesplenomegalia. As vísceras atingirão volumes de grandes proporções, principalmente o baço, se o paciente não for tratado. Haverá ainda perda de peso, perda do apetite e palidez mucocutânea.


Existem relatos de leishmaniose visceral em felinos principalmente nas regiões consideradas endêmicas. Apesar da ocorrência de infecções esporádicas, a espécie felina não é considerada, até o momento, reservatório importante da doença. São pouco conhecidas a prevalência, a transmissão e o quadro clínico da enfermidade nessa espécie que normalmente é inespecífico e se assemelha aos sintomas observados na espécie canina. Evidências apontam que a leishmaniose felina pode estar associada a doenças imunossupressoras, tais como a leucemia (FeLV) e imunodeficiência viral felina (FIV).


A leishmaniose visceral canina é uma doença de difícil diagnóstico, sendo necessário muitas das vezes a realização de vários exames, bem como sua repetição. Os informes clínicos, principalmente em pacientes sintomáticos são bastante relevantes, entretanto devem ser complementados com exame sorológico , parasitológico , hemograma, proteinograma e provas de função renal e hepática.


As medidas adotadas na prevenção da leishmaniose canina devem ser baseadas no controle do vetor (mosquito) , através de borrifação de inseticidas nas áreas intra e peridomiciliar. No cão, o uso de coleira a base de Deltametrina e produtos tópicos com ação repelente do mosquito devem ser considerados. Realizar limpeza frequente dos locais de acúmulo de matéria orgânica como canis,  galinheiros, viveiros e gaiolas de pássaros , quintais com árvores ou jardins e lotes vagos. Devem ser evitados passeios com o cão em horários de repasto sanguíneo do mosquito (entre 6:00 e 7:00 e 18:00 e 19:00), lembrando-se dos períodos de horário de verão existente em alguns estados. A proteção imunológica possui, atualmente, enorme representatividade na prevenção da doença em cães, devendo ser considerada a vacinação do animal, já que existem vacinas contra Leishmaniose disponíveis no mercado.


A eutanásia de cães soropositivos é recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde), entretanto a própria entidade reconhece o grande valor afetivo, econômico e prático destes animais, na grande maioria das vezes, não podendo ser eliminados indiscriminadamente. Outro fator importante está relacionado à ineficácia do extermínio destes cães no controle da doença, e um dos fatores para tal se relaciona ao método de exame adotado, que em diversas situações gera resultados falso-positivos. A eliminação do vetor é necessariamente o método mais eficaz na prevenção da Leishmaniose visceral. Portanto todo e qualquer animal que manifeste sintomas de leishmaniose deve ser encaminhado aos cuidados do profissional médico veterinário que irá orientar e adotar condutas que melhor convierem ao bem-estar de seu paciente , das pessoas que convivem com ele e da população de um modo geral.



                                                
Lutzomyia longipalpis (foto)

                                                    
Lutzomyia longipalpis (desenho)



                                                                                                                 
                                                   
Alopécia (falha de pêlo) em orelha  de cão                                                   Lesões perioculares em cão



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Os cães-guia

O convívio com cães estabelece uma série de benefícios na vida das pessoas em diferentes faixas etárias, classes sociais ou estado de saúde, e dentre estes benefícios devemos destacar a importância do cão-guia na vida de deficientes visuais.

Sua atividade tem se tornado imprescindível na melhoria da qualidade de vida destas pessoas, já que recebem treinamento árduo para auxilia-los durante o seu dia-a-dia. Proporcionam uma melhor desenvoltura na locomoção, prevenindo acidentes em obstáculos pelo chão, como buracos, e aéreos, como galhos, que não são passíveis de identificação por bengalas. Além disso os cães-guia auxiliam na determinação do melhor caminho, na travessia de ruas e na identificação de pontos de referência como escadas, portas, elevadores e cadeiras.

Treinar um cão para ser guia é uma tarefa difícil que demanda tempo, investimento e dedicação. A realidade no Brasil quanto a esta modalidade de trabalho canino , ainda é bem negativa, principalmente se comparada à  de países como Estados Unidos, França e Japão. Estima-se que existam apenas 80 cães para 1,4 milhões de deficientes visuais em todo o país, entretanto a existência de ONGs como o Instituto de Integração Social e Promoção da Cidadania ( http://www.mpdft.gov.br/sicorde/caoguia.htm ) , contribui para a mudança deste panorama desde sua fundação em 2002, com o treinamento de cães para tal função. Outra ONG de destaque é a IRIS (www.iris.org.br), que não realiza o treinamento completo no Brasil, mas tem parceria com uma escola americana, que recebe os usuários brasileiros. Estes por sua vez, têm suas passagens pagas pela ONG e seus parceiros.

O treinamento e a manutenção de um animal custam em média 25 mil reais e o usuário não paga pelo cão. As raças preferidas para a atividade são o Pastor Alemão, o Labrador Retriever e o Golden Retriever, por se destacarem pela inteligência , facilidade de adaptação à diversas situações , fidelidade e docilidade. Os filhotes são selecionados aos dois meses e entregues a voluntários que se propõem a cuida-los até completarem 1 ano de idade. Após este período o cão, que já foi submetido propositadamente a situações que contribuam com sua socialização, é reavaliado com relação ao seu comportamento e seu estado geral de saúde. Se apto é encaminhado para o treinamento com duração de seis a doze meses dividido em estágios. Estas etapas consistem em aprendizado de comandos iniciais, como sentar, deitar e virar a esquerda ou a direita. Em seguida aprendem a lidar com pequenos obstáculos como degraus e pisos irregulares. Posteriormente passam por simulações de situações externas, como desviar de obstáculos maiores e caminhar por calçadas e faixas de pedestre, ainda sem sair do centro de treinamento. Na etapa final são levados às ruas para vivenciarem situações reais.

O usuário do cão-guia também deve ser submetido a treinamento, já que é necessário uma adaptação para uma melhor interação entre ele e o cão. Orientações técnicas de comandos, assim como aprender a reconhecer um movimento diante de um desvio de obstáculo por exemplo, são fundamentais para que o deficiente visual possa fazer uso adequado da atividade de guia de seu cão. Recebem também, orientação veterinária acerca de cuidados com a saúde do animal.

Quando entregue ao usuário, o cão-guia fica em atividade por cerca de oito a dez anos. Após esta idade devem ser afastados do trabalho e na maioria das vezes permanecem com seu dono, com parentes ou amigos. Em diversas ocasiões são convidados a demonstrações em escolas e exposições.

A lei número 11.126, de 27 de junho de 2005 decreta que "a pessoa com deficiência visual usuária de cão-guia tem o direito de ingressar e permanecer com o animal em todos os locais públicos ou privados de uso coletivo". Ainda assim os portadores de deficiência visual com seus cães enfrentam situações de constrangimento, devido à desinformação de grande parcela da população, que deve se inteirar a respeito do assunto, para não apenas, não cometer o ato de preconceito, como também não atrapalhar o trabalho do cão-guia ao se deparar com ele em algum local.

No momento de trabalho estes cães se encontram altamente concentrados, e qualquer desvio de sua atenção por meio de carícias, brincadeiras ou proximidade com  outro animal, expõe seu usuário a acidentes. Importante saber que estes  são dóceis e bem treinados, não oferecendo qualquer risco às pessoas. São extremamente disciplinados quanto às refeições, portanto não lhes deve ser oferecido qualquer tipo de alimento durante seu trabalho. Seu posicionamento é sempre pela esquerda de seu usuário, portanto em caso de necessidade de aproximação, é recomendável que seja feita sempre pelo lado direito. Um sinal de cidadania bastante visto nas ruas, é o acompanhamento de deficientes visuais pelo braço. Este ato deve ser evitado com a presença do cão-guia, salvo  em casos de combinação prévia, quando seu usuário dará um comando para que permaneça temporariamente fora de atividade.

Os cães-guia são adestrados e acostumados a viagens e permanência em locais públicos, normalmente acomodados aos pés de seus donos sem atrapalhar outras pessoas ou o funcionamento de determinado estabelecimento. A conscientização da população em geral quanto a existência desta atividade e de suas normas é fundamental, já que representa muito para a inclusão social de pessoas que convivem com uma situação desfavorável, mas que não lhes retira o direito de uma vida normal. 








quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Doença Periodontal

A doença periodontal resulta de resposta inflamatória progressiva do indivíduo ao acúmulo de placa bacteriana e cálculo dental (tártaro). Pode ser classificada em gengivite e periodontite leve , moderada e avançada, e esfoliação dentária, sendo esta última considerada a forma mais grave, em que ocorre perda óssea e eventual perda do dente.

Dada a grande variedade em tamanho e função dos dentes, bem como o grau de abrasão da dieta sobre eles e de sua ação na gengiva, a doença periodontal é considerada uma das enfermidades mais comuns da cavidade oral.

Estudos comprovam que grande parte dos animais, acima de três anos de idade já apresenta sinais clínicos de doença periodontal, chegando a números percentuais de acometimento de cerca de 80% dos cães e gatos. 


A presença do cálculo dental é o sinal mais facilmente identificado para se determinar a existência da doença periodontal. Outra característica clínica importante é a halitose (mau hálito). Alterações como edema , cor mais avermelhada e sagramento da gengiva sinalizam sua inflamação (gengivite), e em quadros avançados o animal manifesta sialorréia (excesso de salivação) e odinofagia (dificuldade na deglutição).


Tal condição não predispõe o animal somente a dor , devido ao processo inflamatório local, com eventual perda dos dentes, mas também ao aparecimento de doenças sistêmicas causadas pela absorção de metabólitos bacterianos na corrente circulatória, causando danos aos rins , fígado e coração, já que é sabido que as bactérias associadas à doença periodontal estão relacionadas às afecções nestes órgãos.  O fator social também deve ser levado em conta, uma vez que diversos animais gravemente acometido, tendem a ser afastados do convívio de seus proprietários, sofrendo assim uma espécie de discriminação. 


Alguns fatores predisponentes devem ser levados em consideração, já que a doença periodontal é considerada multifatorial. Entre eles a tendência de algumas raças a apresentarem anomalias dentais como dentes supranumerários ou hipoplasia do esmalte, retenção de decíduos ou má oclusão. A condição imunológica do animal, também possui representatividade , uma vez que idade avançada, doenças sistêmicas ou endócrinas, entre outros fatores podem levar à imunossupressão e predispor à deposição da placa bacteriana. O manejo alimentar inadequado e a falta de cuidados com a higiene bucal, são as principais causas a serem consideradas, já que uma boa orientação quanto a estes fatores pode ser significativa para a prevenção da doença.


Observa-se que o acúmulo de placa ou cálculo estão diretamente relacionados ao tipo de dieta oferecida. Animais alimentados com rações umedecidas, úmidas enlatadas ou dietas caseiras têm uma menor ação abrasiva do alimento com os dentes, favorecendo este acúmulo. Portanto o uso de ração industrializada seca, torna-se um método preventivo espontâneo, pela auto-limpeza através da abrasão promovida por estes alimentos.Ossos artificiais, tanto comestíveis, quanto de brinquedo são bastante efetivos na limpeza dos dentes por promoverem uma raspagem de sua superfície. Também já estão disponíveis no mercado suplementos mastigatórios, contendo compostos enzimáticos com ação inibidora da formação do cálculo dental.


A profilaxia mais efetiva, entretanto consiste na escovação dentária. Esta quando feita diariamente representa o melhor método para manter a cavidade bucal livre de placa e consequentemente da doença periodontal. O condicionamento do animal para esta prática deve ser iniciado nos primeiros meses de vida, tendo em vista que, animais adultos desacostumados à escovação oferecem maior dificuldade. Sessões de 2 a 3 minutos, podendo ser de forma paulatina, a cada 24 horas são recomendadas para diminuir a formação da placa, já que este é o período de sua formação e organização. A aceitação por parte do animal aumenta se a boca não for aberta bruscamente e se os lábios forem suavemente afastados para exposição dos dentes. Tornar a escovação agradável, relacionando-a a algo bom como petiscos , afagos ou passeios facilita sua realização. A escova de dente deve ser macia e a pasta de dente de uso veterinário.Pastas contendo complexo enzimático, como nos suplementos mastigatórios, são preferíveis, e as de uso humano são contra-indicadas pois podem provocar alterações gástricas e até intoxicação.


Avaliações clínicas esporádicas da cavidade oral são de fundamental importância para determinar a ocorrência da doença periodontal e avaliar sua gravidade. Baseado nesta avaliação, o veterinário deverá adotar a conduta adequada, sendo normalmente indicada a intervenção cirúrgica. Esta é realizada somente mediante anestesia geral, e consiste na eliminação de todo o cálculo dental, através de raspagem, aplainamento e polimento das superfícies duras, extrações de dentes comprometidos e acompanhamento por meio de programa preventivo. Caso a doença não seja tratada no seu estágio mais incipiente, torna-se praticamente impossível controlá-la.



Remoção de tártaro em cão



Cavidade oral de um mesmo paciente 
antes e dias após remoção de tártaro