quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Pediatria veterinária


Na rotina veterinária, os cuidados pediátricos representam um componente integral da saúde geral de cães e gatos neonatos. Estes cuidados se estendem do nascimento aos seis meses de vida do animal sendo este  um período em que se encontra vulnerável a diversas desordens infecciosas nutricionais e metabólicas, devido à sua imaturidade fisiológica associada à quebra de barreiras físicas , químicas e microbiológicas presentes no ambiente intra-uterino durante a fase gestacional. Desta forma cães e gatos requerem atenção especial durante as diversas fases de seu desenvolvimento, recebendo classificação distinta de acordo com a idade para que sejam respeitadas as peculiaridades de acordo com o tempo de vida. Esta classificação é variável de acordo com as fontes consultadas , podendo haver alguma controvérsia entre alguns artigos.

Do nascimento até a segunda semana de vida o neonato se encontra na Fase Neonatal. Durante este período o animal possui dependência materna integral, inclusive para micção e defecação, ambos estimulados pela lambedura da mãe. Filhotes nesta fase dedicam 30% de seu dia à alimentação e os 70% restantes ao sono. Os olhos e o conduto auditivo ainda estão fechados, o que torna o tato, o paladar e o olfato imprescindíveis à sobrevivência já que são os únicos sentidos existentes auxiliando a amamentação e o aquecimento. Há durante este período uma incapacidade de manutenção da temperatura corporal sendo fundamental, para isto , a proximidade com a mãe e com os outros filhotes da ninhada. Em termos de função neurológica, já há algum desenvolvimento , principalmente quanto ao equilíbrio, que se torna necessário durante o ato da amamentação. Entre o fim da primeira semana e o término da segunda já se observa sustentação com os membros torácicos e pélvicos. Outro fator importante a ser destacado nesta fase é quanto à função digestiva, que devido ao processo natural de colonização bacteriana gástrica e intestinal, merece atenção quanto aos transtornos causados pelo uso de antibióticos no filhote ou na mãe durante a amamentação.

Ao término da fase neonatal inicia-se a Fase de Transição que compreende a terceira semana de vida do neonato. Este já é provido de competência audiovisual devido à abertura dos olhos e dos ouvidos. Também ocorre um maior desenvolvimento da função neurológica, bem como uma determinada independência materna. O desenvolvimento da função renal somente se completa ao término da terceira semana, portanto a incapacidade de excreção  de drogas através da urina, torna o neonato durante este período, susceptível à intoxicação por drogas e metabólitos. Já começam a manifestar sons, e ainda dependem da mãe para defecar e urinar.

Quando ocorre redução do tempo dedicado à alimentação e ao sono, observa-se o início das atividades sociais do filhote. Este comportamento sinaliza o início da Fase de Socialização que se inicia na quarta semana e se estende até a décima. O contato com outros animais e com seres humanos permite o aprendizado e define os padrões de comportamento futuros. Já ocorre maturidade renal e as respostas imunológicas se encontram completamente desenvolvidas sendo indicado, em torno da oitava semana de vida, o início da realização de programas vacinais.

Compreende o intervalo entre a décima semana e os seis meses de idade,  quando entra na puberdade, a Fase Juvenil a qual é marcada por mudanças graduais quando se estabelece o padrão de comportamento e conformação característicos do individuo adulto. Ocorre desenvolvimento através do crescimento corporal e do aperfeiçoamento das funções motoras do neonato. Possui características fisiológicas, como frequência cardíaca , respiratória e temperatura corporal , similares aos indivíduos adultos, além do que já manifesta maior acurácia de sentidos como audição e visão. Ao término desta fase se relaciona o início da puberdade, logo o aumento das funções reprodutivas, determinando assim o completo desenvolvimento do organismo.

Em função das inúmeras peculiaridades observadas em cães e gatos do primeiro dia ao sexto mês de vida , médicos veterinários , criadores e proprietários devem dedicar atenção especial a estes indivíduos. Trabalhos estatísticos na área revelam índice de mortalidade em até 30% dos filhotes, tanto de caninos quanto felinos, antes do desmame e podendo se estender até a puberdade. Cuidados intensivos ao nascimento mantendo a ninhada sempre junta e com a mãe em local limpo e protegido previne os prejuízos à saúde dos recém-nascidos já que evita a queda de temperatura corporal e a hipoglicemia e desidratação causadas por uma amamentação insuficiente ou inadequada. A medida que se torna mais velho o neonato passa a depender menos da mãe, entretanto esta dependência é transferida à pessoa responsável por ele. Sendo assim cuidados com a higiene do local aonde estão alojados passam a ser imprescindíveis na prevenção de doenças. Outro fator importante e de responsabilidade do cuidador, é quanto à alimentação dos filhotes. Até o trigésimo dia o neonato deve se alimentar de leite materno, mas a partir daí dietas apropriadas devem ser adotadas, sendo recomendável a introdução de alimentos específicos para o processo de transição entre o leite e o alimento seco. Posteriormente recomenda-se a introdução de ração seca definitivamente, de preferência as industrializadas , em sacos fechados, de boa qualidade e direcionada para cães e gatos em fase de crescimento, por período a ser determinado sob orientação do médico veterinário. Início dos esquemas de vermifugação e vacinação, além de adoção de ações direcionadas ao manejo adequado de filhotes, também deve ser alvo de grande atenção por parte de todos os envolvidos com estes animais, nesta fase tão importante para um desenvolvimento saudável com reflexos positivos por toda sua vida.

Artigos consultados: http://www.cstr.ufcg.edu.br/mv_downloads/monografias/mono_cydia.pdf

http://www.cbra.org.br/pages/publicacoes/rbra/download/RB029%20Crespilho%20p3-10.pdf

http://www.fmv.utl.pt/spcv/PDF/pdf12_2008/165-170.pdf

http://www.biomedcentral.com/content/pdf/1751-0147-49-S1-S2.pdf









quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Síndrome de Cushing Canina


Síndrome de Cushing, também denominada Doença de Cushing ou Hiperadrenocorticismo é uma endocrinopatia bastante comum em cães e se refere às anormalidades clínicas e químicas que resultam da exposição crônica a concentrações excessivas de glicocorticóides. Esta síndrome foi descrita pela primeira vez na literatura médica em 1932, baseada em estudo realizado pelo Médico  Harvey William Cushing com 12 pacientes humanos com quadro clínico de obesidade, afecções cutâneas e hipertensão arterial, causado pela presença de neoplasia existente na hipófise. Em pacientes caninos foi descrita pela 1ª vez em 1939 e denominada Síndrome de Cushing Canino.


Hiperadrenocorticismo está diretamente relacionado às anormalidades existentes nas glândulas adrenais e eixo hipotalâmico-hipofisário, que em condições normais atuam em conjunto com o sistema nervoso central, constituindo uma entidade funcional importante para a manutenção da homeostasia do organismo. A relação anatomo-fisiológica existente entre estes órgãos é responsável pela síntese e regulação de diversos hormônios esteróides, com destaque para o cortisol, a aldosterona e os hormônios sexuais.


Sendo assim, esta anormalidade é considerada uma endocrinopatia que traduz-se em hipersecreção do hormônio cortisol pelo córtex da glândula adrenal. Pode surgir de forma espontânea ou por causa iatrogênica. No primeiro a moléstia é classificada como hipófiso-dependente (hipofisária) ou  adreno-dependente. Quando de origem iatrogênica, como o próprio nome diz , o hiperadrenocorticismo é provocado por tratamento médico. Pode ser classificada, também como funcional traduzindo-se em aumento transitório dos níveis séricos de cortisol no organismo devido a alterações ambientais ou orgânicas. 


Estima-se que 80% dos casos de hiperadrenocorticismo espontâneo canino sejam de origem hipofisária. Ocorre devido a uma hiperplasia de células corticotróficas que estão localizadas na hipófise e são responsáveis pela produção do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH). Este atua sobre a glândula adrenal estimulando a síntese e liberação de seus hormônios, principalmente o cortisol. Tal processo pode ocorrer, também, devido à presença de tumor na hipófise.


Estudos revelam que cerca de 15% dos casos  de hiperadrenocorticismo espontâneo ocorrem em função da existência de processo neoplásico nas glândulas adrenais, sendo classificado como adreno-dependente e por se localizar exatamente na adrenal é considerado de origem primária, já que é a glândula responsável pela produção e liberação de cortisol, que se tornará exacerbada na presença da neoplasia. Tumores adrenais são frequentemente unilaterais e secretam grande quantidade do hormônio. São diferenciados apenas através de análise histopatológica, sendo os mais comumente encontrados, os adenomas e adenocarcinomas , os quais se encontram em proporção idêntica no cão.


Conforme mencionado, o Hiperadrenocorticismo iatrogênico ocorre em função do uso excessivo de medicamentos a base de glucocorticóides, frequentemente adotados na prática clínica como tratamento de diversas patologias. Clinicamente, o paciente apresenta as mesmas alterações clínicas e laboratoriais do Hiperadrenocorticismo espontâneo, sendo necessário testes específicos para se estabelecer diagnóstico diferencial entre um e outro.


Quando de origem funcional, o aumento do cortisol sanguíneo é transitório e ocorre em função de alterações metabólicas relacionadas à síntese , secreção e regulação dos glucocorticóides. Esta condição se deve a alterações orgânicas e do meio externo, elevando os níveis séricos de cortisol e causando  hiperadrenocorticismo. Doenças inflamatórias, alterações hepáticas , renais , pancreáticas , traumatismo , dor , sexo (cadelas na fase diestral do ciclo reprodutivo com tendencia à manifestação da doença), predisposição racial (cães de pequeno porte ) , outras endocrinopatias como hipotiroidismo e diabete melito (nesta situação podem ser a causa do hiperadrenocorticismo ou serem provocadas por tal) e estresse (contenção , cirurgias , etc) podem induzir estado transitório de hiperadrenocorticismo, mas que pode evoluir cronicamente acometendo o indivíduo de forma persistente.


Hiperadrenocorticismo tem como apresentação clínica mais comum a poliúria (aumento do volume urinário), polidipsia (aumento da sede) e polifagia (aumento da fome). Anormalidades dermatológicas são frequentes e dentre várias outras condições como adelgaçamento da pele, seborreia, piodermite e hiperpigmentação, destaca-se a alopécia (perda de pêlo) normalmente bilateral, simétrica que atinge essencialmente o dorso, os flancos, o períneo e a face ventral do abdômen. Outra manifestação comum é a alteração da conformação física do paciente que apresenta distensão abdominal com aspecto de abdômen pendular. Esta se dá em função do acúmulo de tecido adiposo na cavidade abdominal e também hepático levando ao aumento deste órgão. Outras alterações como fraqueza muscular, dificuldade respiratória e alteração na função reprodutiva podem ser observadas.


Por acarretar graves alterações no paciente acometido, como hipertensão arterial, diabete melito, imunossupressão, infecções secundárias, pancreatite aguda, entre outras consequências, o hiperadrenocorticismo deve ser sempre abordado mediante diagnóstico clínico e complementar, já que  seu prognóstico depende desta abordagem, que irá determinar terapêutica adequada. Monitoramento constante deste paciente também é fundamental para obtenção de qualidade e aumento da expectativa de vida.

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