domingo, 15 de julho de 2012

Catarata

Entende-se por catarata toda e qualquer opacidade existente no cristalino, cápsula do cristalino ou ambos impedindo a visão. É a doença mais comum causadora de cegueira em cães, eventualmente observada em gatos, proveniente de diversas causas intrínsecas e extrínsecas e podendo variar quanto ao tamanho , localização , forma e velocidade de progressão.

Cristalino é uma estrutura transparente, avascular e biconvexa composta de células organizadas longitudinalmente envolvida por uma membrana elástica chamada cápsula do cristalino e localizada imediatamente posterior à íris. Funciona como uma lente (por isto também denominada Lente), e possui um tecido altamente estruturado que promove a refração dos raios luminosos que entram no olho para um ponto na retina. No cão possui um volume de aproximadamente 0,5 ml uma espessura anteroposterior de 7 mm e um diâmetro equatorial de 10 mm.

Por apresentar bioquímica bastante complexa, a formação da catarata possui diversas causas. No âmbito geral a alteração se inicia a partir de distúrbios metabólicos que promovem mudanças morfológicas na cápsula do cristalino e em seu epitélio e fibras, provocando perda da transparência(opacidade) por ruptura das fibras do cristalino além da morte celular. Invariavelmente este processo é um denominador comum em todas as doenças do cristalino e devido à natureza e aparência variadas, a catarata recebe diversas classificações , sendo seu estágio de evolução e sua etiologia os métodos mais comumente utilizados como meio de classifica-la.


Em seu estágio de evolução a catarata pode ser classificada como incipiente quando ocorre opacidade inicial e focal com acometimento de até 20% do cristalino, entretanto neste caso não há perda da visão e a lesão pode ou não progredir. Catarata imatura apresenta maior extensão da opacidade, podendo acarretar prejuízos à visão. Estas ao se evoluírem se tornam cataratas maduras em que 100 % do cristalino se encontra acometido tornando o indivíduo funcionalmente cego. Algumas cataratas maduras evoluem ainda mais, sendo classificadas como Hipermaduras por se tornarem liquefeitas devido à proteólise, entrando em estado de reabsorção, que pode resultar em inflamação de estruturas intraoculares. Pacientes que se encontram neste estágio da catarata possuem perda de visão com probabilidade mínima de recuperação.


Do ponto de vista clínico, existem muitos fatores causadores de catarata. Estes podem ser Hereditários muito comuns em raças puras com destaque para o Poodle cuja prevalência é maior que 10%. Catarata metabólica ocorre devido a distúrbios metabólicos , que podem acontecer durante o desenvolvimento embrionário ou  por alterações endócrinas. Catarata congênita se inicia durante a vida fetal, estando presente ao nascimento e podendo ser estacionária ou progressiva. Não necessariamente a catarata congênita é hereditária, devendo ser levado em conta fatores como consanguinidade ou exposição a substâncias físicas ou químicas durante a gestação. Catarata adquirida é aquela cuja origem é traumática, metabólica, ou secundária a outras doenças oculares. Catarata nutricional é causada pelo uso inapropriado de substitutos de leite materno, que em filhotes desmamados precocemente, são comumente utilizados, ocorrendo privação de aminoácidos essenciais presentes em níveis reduzidos nestes alimentos. Cataratas físicas estão relacionadas à radiação, cuja exposição se dá frequentemente em exames radiográficos e radioterapia no tratamento oncológico. Numerosos componentes e drogas têm sido apontados como causadores de catarata em animais , quando utilizados em altas doses não terapêuticas sendo portanto esta classificada como Catarata tóxica. Como parte do processo normal de envelhecimento, cataratas são comumente vistas em cães idosos, recebendo classificação de Catarata senil se nenhuma outra causa for detectada. Esta apresenta progressão lenta e bastante comum, principalmente em indivíduos com idade maior do que 10 anos. Estudos revelam que mais de 60% de pacientes diabéticos desenvolvem Catarata diabética, sendo este um distúrbio bastante prevalente no Diabete melitos que pode manifestar desenvolvimento rápido da opacidade, chegando a maturar em curto espaço de tempo.


Frequentemente o animal acometido pela opacidade  do cristalino, é conduzido por seu proprietário até o veterinário devido a mudanças comportamentais em decorrência de diminuição da acuidade visual ou até mesmo por manifestar cegueira total. Observa-se um comprometimento da locomoção por dificuldade em desviar de obstáculos dentro da casa como mesas e cadeiras. Outra queixa comum é a mudança na aparência dos olhos que se apresentam com aspecto esbranquiçado. Em estágios iniciais a alteração é observada principalmente a noite quando a pupila se encontra dilatada. Um atendimento clínico com ênfase para a oftalmologia é de suma importância para que pacientes portadores de alterações sugestivas de catarata, sejam submetidos a avaliação detalhada de todas as estruturas oculares, objetivando assim, que a patologia seja precisamente diagnosticada, estadiada e eleita como tratável cirurgicamente ou não.



Fontes recomendadas:


http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/22922/000736704.pdf?sequence=1

Manual  de oftalmologia veterinária ( Kirk N. Gelatt)









                            
  


domingo, 1 de julho de 2012

Peritonite Infecciosa Felina

Peritonite infecciosa felina (PIF) é uma doença infecto-contagiosa, sistêmica, e progressivamente fatal que acomete gatos domésticos. Comum na espécie, PIF ocorre principalmente quando estes animais se aglomeram em gatis por exemplo. Trata-se de uma enfermidade de etiologia viral imunomediada que, com poucas exceções, leva o indivíduo acometido a óbito em um período de poucas semanas.

Causada por um coronavírus denominado Vírus da Peritonite infecciosa Felina (VPIF), PIF possui como principal forma de transmissão o contato com secreções orais, respiratórias , fezes e urina, ocorrendo infecção por ingestão ou inalação destas secreções sob condições de contato íntimo entre felinos, o que torna a superpopulação desta espécie em um mesmo ambiente, um dos fatores predisponentes. Episódios de estresse, como desmame, transporte e cirurgias , hereditariedade (alguns animais são geneticamente susceptíveis à doença) , más condições de nutrição, doenças infecciosas crônicas infecções por Retrovírus (FIV e FeLV) e tratamento com drogas imunossupressoras, também são determinantes para o acometimento por PIF.

Após a inalação ou ingestão, o vírus se replica nas células epiteliais da orofaringe ou do trato respiratório superior. Ocorre então uma produção de anticorpos antivirais com posterior captação por células de defesa, especificamente os macrófagos. Os anticorpos não captados interagem com os antígenos virais formando estruturas denominadas imunocomplexos no interior dos vasos sanguíneos, sendo este um importante mecanismo de defesa do organismo. Entretanto, estas estruturas se depositam na parede dos vasos gerando uma reação de hipersensibilidade vascular. Isto resulta em uma inflamação (vasculite) disseminada considerada grave, já que causa aumento da permeabilidade dos vasos com consequente exsudação de fluido que se acumula na cavidade abdominal e/ou pleural, sendo classificada como PIF efusiva ou úmida. Esta forma representa aproximadamente 75% dos casos atendidos e ocorre quando há forte resposta imune por anticorpos (resposta humoral) e pouca ou nenhuma resposta imune celular. Quando a resposta imune humoral se manifesta associada à resposta imune celular que desempenha um papel protetor, a inflamação vascular não é tão intensa , não havendo exsudação e portanto se apresentando na forma seca ou não efusiva, o que não minimiza o grau de lesão tecidual.


PIF úmida ou efusiva se caracteriza por acúmulo progressivo de fluido nas cavidades. O paciente se apresenta frequentemente com distensão abdominal no caso de acúmulo de líquido nesta cavidade. Quando o acúmulo ocorre na cavidade pleural o animal apresenta dificuldade respiratória. Em função disto ocorre prostração, diminuição do apetite, emagrecimento, febre, desidratação e óbito que normalmente ocorre de dois dias a dois meses após o início da doença. PIF seca possui sinais inespecíficos normalmente associados às lesões teciduais presentes no fígado, rins, pulmões , sistema nervoso central e olhos (gatos com esta forma da doença normalmente apresentam lesão ocular) . O tempo de sobrevivência dos gatos acometidos por PIF seca é mais prolongado, chegando a doze meses após o início da infecção.


Uma vez infectado, pouco pode ser feito para alterar o curso de PIF em um  paciente felino portador da doença, sendo demonstrado em diversos estudos uma taxa de mortalidade de 100%. Outro fator a ser destacado é a dificuldade na eliminação da infecção uma vez instalado o vírus no ambiente. Assim torna-se demasiadamente importante sua prevenção, que pode ser obtida através da higiene dos gatis (coronavírus é sensível a desinfetantes usuais) , manejo de filhotes de mães soropositivas para coronavírus felino, que devem ser desmamados precocemente para interromper a transmissão vertical (mãe para filho através da amamentação), quarentena de animais recém introduzidos além de remoção de portadores crônicos em gatis e evitar consanguinidade entre animais, já que pode haver maior susceptibilidade relacionada à hereditariedade. Nos casos de compra de gatos, individualmente, é recomendável uma seleção adequada do gatil, escolhendo criadores que se preocupem com a prevenção da doença. Quando a aquisição do animal é feita por adoção, uma avaliação clínica detalhada através de consulta veterinária antes da introdução em ambientes que normalmente já possuem outros gatos, previne a instalação de PIF.



Artigos recomendados : http://www.scielo.br/pdf/cr/v33n5/17138.pdf

http://www.arsveterinaria.org.br/index.php/ars/article/viewFile/38/30



Infecção ocular em felino com PIF 


 Dilatação abdominal em felino com PIF úmida 

Gatil com terra (difícil limpeza)