domingo, 15 de janeiro de 2012

Diabete melito

Diabete melito é uma síndrome caracterizada pelo aumento acima do limite máximo aceitável de glicose, denominada hiperglicemia, provocado por uma incapacidade e/ou insuficiência na secreção do hormônio insulina pelo pâncreas.

Trata-se de uma enfermidade de origem endócrina comumente observada em seres humanos , e cada vez mais frequente em cães de meia-idade e senis. Possui causa multifatorial, sendo a hereditariedade a mais importante, entre outras , como infecções virais , uso de hormônios diabetogênicos como glicocorticóides, autoimunidade e pancreatite. O aumento na ocorrência desta endocrinopatia pode, também, estar associado à obesidade e ao manejo nutricional inadequado, sendo estas causas consideradas muito prevalentes em indivíduos geneticamente susceptíveis.

A história dos animais diabéticos classicamente envolve polidipsia (aumento da sede), poliúria (grandes volumes de urina), polifagia (aumento do apetite), e perda de peso. Os proprietários geralmente reclamam que o animal passou a urinar grandes volumes de urina dentro de casa ou apresentou uma cegueira repentina devido à formação de catarata, complicação muito comum no cão diabético. Os sinais clínicos do diabete melito dependem do tipo , grau e das condições precedentes ao início da insuficiência de insulina. Frequentemente altas taxas de glicose no sangue e na urina podem causar complicações graves , tais como  infecções, catarata, cetoacidose diabética, desordens do sistema nervoso e doença renal. Neste grau, a doença é classificada como diabete complicada , e requer tratamento emergencial intensivo para diminuição dos níveis séricos de glicose sanguínea. Uma complicação bastante comum no paciente diabético é a hipoglicemia, após a administração da insulina. Este distúrbio se manifesta com sinais de letargia , devendo o animal ser submetido à intervenção imediata para aumento dos níveis de glicose em caráter de urgência.

Tendo em vista que a alta taxa de glicose plasmática se deve à diminuição da secreção de insulina, da redução da sua efetividade, ou de ambos, resultando em distúrbios metabólicos de proteínas, gorduras e carboidratos, cães diabéticos dependem de insulina exógena em doses adequadas para sobreviver. O principal objetivo terapêutico é reverter os efeitos catabólicos associados à deficiência ou ao antagonismo de insulina, e restabelecer a homeostase normal do metabolismo de proteínas, lipídeos e carboidratos. Sendo assim , logo que diagnosticada a diabete , o profissional médico veterinário deve iniciar o tratamento com insulina, normalmente em aplicações diárias , para se obter o controle da enfermidade. Complicações relacionadas ao controle ineficaz levando a altos níveis glicêmicos são comuns no início do tratamento , até que o paciente manifeste resposta satisfatória à insulinoterapia. O manejo alimentar é de fundamental importância devido à relação estrita entre obesidade e diabete, devendo ser estabelecida dieta específica industrializada ou até mesmo caseira para o resto da vida do animal .Um programa alimentar visa minimizar a hiperglicemia pós-prandial, impedir ou corrigir a obesidade. 

O prognóstico da doença pode ser considerado de reservado a favorável , desde que seja diagnosticada precocemente. A colaboração do proprietário que normalmente dá continuidade ao tratamento com a insulina de forma domiciliar é um dos fatores preponderantes para o sucesso no controle da diabete , uma vez que o paciente diabético deve receber as injeções de insulina regularmente de acordo com as prescrições médicas. A eficácia do tratamento é , também , influenciada pela utilização de dieta específica , como dito anteriormente , e evitando que o animal receba alimentação  sem a devida orientação veterinária.



Obesidade : Fator predisponente para Diabete
           

Catarata em paciente diabético


domingo, 1 de janeiro de 2012

Hemoparasitose

As hemoparasitoses possuem grande relevância na clínica médica veterinária devido à frequência em que ocorrem. São enfermidades de ocorrência mundial causadas por parasitos intracelulares obrigatórios de células sanguíneas , transmitidas biologicamente pela picada de artrópodes hematófagos. As hemoparasitoses acometem animais de várias espécies, tais como cães e gatos, e são responsáveis por manifestações clínicas variáveis que podem levar ao óbito. Em cães, os hemoparasitos mais comuns transmitidos pelos carrapatos, são as bactérias da espécie Erlichia canis e os protozoários da espécie  Babesia canis. Em felinos , a hemoparasitose de maior prevalência é causada também por uma bactéria, porém da espécie Haemobartonella felis , transmitida também por carrapatos , mas principalmente por pulgas.

  • Babesiose canina
Trata-se de uma doença parasitária com características hemolíticas, transmitida por carrapato. Provoca anemia em decorrência da infecção das hemácias pelo hematozoário denominado Babesia canis. O vetor (carrapato) se infecta ao ingerir as hemácias parasitadas, durante o repasto sanguíneo no cão, transmitindo a doença em sua próxima alimentação, através de sua saliva , sendo necessário um período médio de três dias para que isto ocorra. Um a dois dias após a inoculação do agente , ocorre no hospedeiro canino uma parasitemia inicial com cerca de quatro dias de duração, havendo novo pico dez a quatorze dias depois. A infecção das hemácias provoca destruição das mesmas (hemólise) resultando em anemia. Dentre os sintomas clínicos mais frequentes inclui-se perda de apetite e prostração em decorrência de febre proveniente da liberação de substâncias pirógenas liberadas durante a  destruição das hemácias. O quadro anêmico, se avançado , pode culminar com a morte do animal parasitado. O tratamento é bastante eficaz, principalmente nos casos de detecção precoce, antes da ocorrência da chamada babesiose canina complicada  relacionada à intensa crise hemolítica ocasionada pelo parasita e da liberação sistêmica de fatores inflamatórios que levam a patologias como a doença renal aguda. Pode ocorrer , também , alterações inespecíficas  como convulsões , vômito e diarréia.

  • Erliquiose canina
O gênero Erlichia compreende bactérias intracitoplasmáticas, transmitidas por carrapatos, que infectam leucócitos e plaquetas do indivíduo parasitado. Várias espécies deste gênero causam infecção em cães, porém a mais comum denomina-se Erlichia canis. Erliquiose é uma doença comum , transmitida por carrapatos que se contaminam ao ingerir leucócitos infectados durante o repasto sanguíneo. Embora considerada uma doença de diagnóstico difícil em virtude de sua inespecificidade e variabilidade dos sinais que apresenta, algumas manifestações clínicas são mais comuns, porém variando de acordo com seu curso. Na fase aguda, que pode durar entre 2 e 4 semanas e ocorre entre 8 e 20 dias após a infecção, observa-se febre, prostração , perda de apetite e emagrecimento, além de alterações hematológicas como a queda de plaquetas (trombocitopenia). Se o animal sobreviver à esta fase, os sinais clínicos podem desaparecer em até 4 semanas, mesmo sem que o animal receba tratamento, porém ele permanece com a infecção na forma subclínica, podendo apresentar ainda assim, alguns sintomas, embora brandos , como pequenas hemorragias , alterações neurológicas, artrite e inflamação dos glomérulos renais (glomerulonefrite). Acredita-se que indivíduos imunocompetentes eliminam a infecção durante esta fase, que pode durar meses ou anos. Entretanto alguns animais não são capazes de eliminar o parasita e desenvolvem a fase crônica da doença. A fase crônica instala-se devido à ineficiência do sistema imune do hospedeiro e os sintomas são os mesmos da fase subclínica, porém de forma exacerbada. Geralmente o animal se apresenta apático, caquético e com infecções secundárias diversas (bacterianas , fúngicas e parasitárias). Glomerulonefrite é um achado comum nesta fase, levando o animal parasitado a desenvolver doença renal,  e o agravamento das alterações hematológicas propicia a ocorrência de hemorragias. O tratamento, assim como na babesiose que na grande maioria das vezes aparece concomitantemente à erliquiose,  é eficaz , principalmente se diagnosticada precocemente. Cães tratados não adquirem imunidade persistente , sendo susceptíveis a reinfecções.

  • Hemobartonelose felina

A hemobartonelose, também denominada anemia infecciosa felina, é causada por uma bactéria da espécie Haemobartonella felis. Trata-se de um microrganismo hemotrópico, já que parasita as hemácias do hospedeiro, causando sua destruição. A doença é caracterizada pelas fases aguda e crônica, e sua transmissão ocorre através da picada de carrapatos e pulgas infectados com o microrganismo, podendo ocorrer também por via placentária, da mãe para o feto, por mordidas ou transfusão de sangue, . Na fase aguda , o indivíduo infectado manifesta anemia , falta de apetite e perda de peso. Nesta fase, principalmente sem que o animal seja tratado, ou quando ocorre anemia grave, o hospedeiro normalmente vem a óbito. Gatos que se recuperam sem tratamento sofrem episódios recidivantes da doença , permanecendo cronicamente infectados durante meses a anos, se não indefinidamente. Na fase crônica o portador é clinicamente normal, mas pode apresentar leve anemia. Alterações do sistema imunológico, como por exemplo FIV e FeLV, podem ocasionar um processo de agudização do quadro crônico, levando ao reaparecimento dos sinais da fase aguda. O prognóstico da hemobartonelose é bom, principalmente se o tratamento for iniciado antes do agravamento do quadro anêmico.

                     

Erlichia em célula granulocítica

Forma dupla e piriforme tíbica de B. canis

H. felis se apresentando como pontos
 arredondados na superfície das hemácias


Carrapato
                    
Pulgas