quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Verme do coração

O chamado "Verme do coração", é um parasito da classe Nematoda ,  espécie Dirofilaria immitis e agente causador da Dirofilariose canina. Tal patologia pode ser apontada como uma importante causa de cardiopatia adquirida em cães, devido ao comprometimento do coração e das artérias pulmonares, causado pelo alojamento da forma adulta deste verme nestes locais. Embora seja uma doença que acomete principalmente cães, pode ocorrer em felinos e ocasionalmente humanos, sendo considerada, portanto uma zoonose.

Dirofilaria immitis na fase adulta se alojam nas artérias pulmonares e ventrículo direito, conforme dito anteriormente, e podem medir entre 15 e 30 cm de comprimento, sendo as fêmeas maiores do que os machos. O ciclo de vida destes nematóides é considerado longo ( pode durar 6 meses após a infecção) e inclui a passagem obrigatória por hospedeiros intermediários ou vetores , que são os mosquitos da família Culicidae. Existem aproximadamente 70 espécies dos gêneros Aedes, Anopheles e Culex receptivas à infecção pelo parasita, ainda que a capacidade de transmissão tenha sido demonstrada em menos de 12 espécies. A única forma de transmissão natural é através  da picada destes insetos , que ao se alimentarem do sangue de indivíduos portadores se infectam com as larvas do parasito, e a transmitem a um novo hospedeiro.

Larvas de D. immitis , também denominadas microfilárias , passam por cinco fases, desenvolvendo-se tanto no hospedeiro intermediário (mosquito) como no hospedeiro definitivo (cão). Da primeira à terceira fase ( L1 , L2 e L3) as larvas realizam seu desenvolvimento no interior do mosquito infectado, que durante o repasto sanguíneo a transmitem ao cão na fase 3 (L3). Esta  é denominada larva infectante e é depositada na pele do hospedeiro por onde penetra no local da inoculação. Após sua penetração, realizam uma migração subcutânea em direção ao tórax, evoluindo da terceira para quarta fase (L3 para L4). Ao término de aproximadamente 60 dias, sofrem a quarta e última muda para L5 ou adultos imaturos , que em também, aproximadamente 60 dias, atingem sua maturidade sexual, se reproduzindo e reiniciando seu ciclo.


Vários fatores influenciam a frequência desta infecção na população canina, já que o desenvolvimento do vetor (mosquito) e do parasito são influenciados pelo ambiente, merecendo destaque o clima quente. A vegetação local,  abundância de vetores susceptíveis, presença de cães portadores e alta densidade populacional canina, também são fatores predisponentes. Apesar de sua ampla distribuição por todo o globo terrestre, as prevalências mais elevadas encontram-se na América do Sul (incluindo o Brasil), América Central e Caraíbas. No Brasil , assim como em outros países, as regiões costeiras tropicais ou subtropicais são as mais prevalentes, o que não exclui a possibilidade de haver áreas longe do litoral aonde a doença possa ocorrer. 


A maioria dos portadores é assintomática, e uma vez diagnosticada , normalmente em exames de rotina, recomenda-se um teste anual para microfilaremia ( presença de larvas no sangue). Pacientes com a doença oculta ou aqueles que não são testados rotineiramente são mais propensos a exibir sinais clínicos. Os sintomas mais comumente observados são dificuldade respiratória durante exercício, fadiga , síncope (desmaio súbito) , tosse , sangramento nasal, perda de peso e/ou sinais de insuficiência cardíaca congestiva direita (aumento de volume de órgãos abdominais por exemplo).


Ao ter a dirofilariose diagnosticada , o paciente deverá receber tratamento microfilaricida, sob prescrição do profissional médico veterinário. Entretanto a prevenção da doença é importante, uma vez que trata-se de uma doença grave e "silenciosa". Animais residentes em áreas endêmicas, como cidades litorâneas, devem receber tratamento profilático com frequência a ser determinada pelo veterinário e mediante testes periódicos de detecção da doença. Aqueles residentes em cidades não consideradas endêmicas, devem realizar tratamento profilático, principalmente por ocasião de viagens a regiões litorâneas, devendo ser adotado nestes casos medidas que evitem o contato com o mosquito e que eliminem o agente etiológico antes da progressão da doença.


Dirofilaria immitis alojadas no coração



Mosquito da família Culicidae



Cães na praia

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Verminoses intestinais

A prevalência de verminoses intestinais em cães e gatos pode ser considerada elevada, sendo os animais jovens aqueles que apresentam maior susceptibilidade e manifestações clínicas mais severas. A ação espoliativa de helmintos (vermes) , se reflete em perda do apetite , emagrecimento, diarréia , vômito e retardo no crescimento, além da imunossupressão orgânica que contribui para o aparecimento de patologias de natureza infecciosa.

Os animais domésticos desempenham o papel de hospedeiro definitivo para algumas espécies de vermes, podendo causar enfermidades importantes para seres humanos. O contato direto ou indireto de pessoas com cães e gatos aumenta o risco de infestações, especialmente em crianças , se não houver cuidados específicos com a prevenção e o tratamento das verminoses nestes animais.

Dentre os parasitas do trato alimentar de cães e gatos , alguns merecem maior destaque devido à frequência de infestação e importância que desempenham na saúde destas espécies, além de se caracterizarem como zoonose, já que podem estabelecer doença em humanos, representando assim um problema de saúde pública. As classes mais importantes são representadas pelos Nematódeos , Ancilóstomos e Tênias.

Nematódeos são muito comuns em cães ( Toxocara canis e Toxascaris leonina) e em gatos ( Toxocara cati e Toxascaris leonina). A principal forma de transmissão ocorre a partir da ingestão dos ovos diretamente ou pela ingestão de hospedeiros intermediários (roedores por exemplo). O T. canis é também, frequentemente transmitido por via transplacentária da mãe para o feto e o T. cati por via transmamaria durante a lactação de felinos recém nascidos. Estes parasitas, durante a fase adulta, vivem na luz do intestino delgado, e suas larvas podem penetrar pela mucosa intestinal e migrarem para outros tecidos do organismo , como o fígado e pulmões , gerando lesões significativas nestes órgãos. Os sinais clínicos mais comumente observados constituem de diarréia e retardo no crescimento. Grandes infestações podem causar obstrução intestinal, principalmente em filhotes. T. canis e T. cati são responsáveis pela transmissão a seres humanos da Larva migrans visceral. Esta condição é  uma infestação helmíntica bastante comum em pessoas, e ocorre devido à penetração da larva destes nematódeos através da pele, que migra pela circulação até o miocárdio (coração) e o sistema nervoso central. Se houver migração para o globo ocular é denominada Larva migrans ocular.

Ancilóstomos ( Ancylostoma sp e Uncinaria sp) são mais comum em cães do que em gatos, e a infecção ocorre pela ingestão dos ovos ou através da lactação. Vermes adultos vivem na luz do intestino delgado, onde se prendem, se alimentando de mucosa e sangue. Desta forma a sintomatologia mais comum é a presença de sangue nas fezes (melena), além da diarréia, podendo levar a óbito, principalmente hospedeiros jovens, gravemente infectados. Em cães adultos esta helmintose pode predispor ao aparecimento de outras infecções intestinais. Esta classe de helmintos é responsável por outra importante zoonose conhecida popularmente como "bicho geográfico". Larvas de ancilóstomos denominadas Larva migrans cutanea penetram superficialmente a pele humana formando "túneis" de aspecto tortuoso que fazem lembrar um mapa geográfico. Sua penetração provoca uma inflamação local (dermatite) que irá tornar o local avermelhado devido à irritação da pele (eritema). 

Tênias infectam cães e gatos sendo a mais comum o Dipylidium caninum. Sua infecção ocorre pela ingestão de fragmentos denominados proglotes, junto às fezes ou na região perianal. Pode se contaminar , também, ao ingerir pulgas  acidentalmente durante prurido (coceira). Este ectoparasita está presente no ciclo desta classe de helmintos como hospedeiro intermediário infectado. Os sinais clínicos mais comuns em animais parasitados consiste de prurido anal associado a liberação de segmentos móveis do verme (proglotes) que se movem na região do períneo. Pode ocorrer declínio sutil da condição corporal do indivíduo parasitado, e não há relevância quanto à infecção em seres humanos.

Medidas de prevenção e controle das infecções helmínticas devem ser adotadas, sendo fundamental a intervenção do profissional médico veterinário, para que se otimize os resultados, de forma a , não apenas, proteger a saúde e o bem estar de cães e gatos, como também da população humana que convive com estes animais em seu dia a dia. É necessário a introdução de um programa de vermifugação em filhotes a partir de 20 dias de idade, com repetição trimestral, quadrimestral ou semestral, de acordo com a idade e hábitos de vida daquele animal. Vermífugos disponíveis no mercado possuem ação adulticida (elimina vermes adultos) apenas, não atingindo outros estágios dos vermes, como larvas por exemplo. Torna-se então,  necessário a revermifugação entre 15 e 30 dias após a administração da 1ª dose do vermífugo, para que se elimine todos os estágios do parasita existentes no intestino, de acordo com seu ciclo de vida. Medidas de higiene como limpeza frequente de locais utilizados como sanitário de cães e gatos, controle de hospedeiros intermediários (pulgas e roedores) , tratamento a base de anti-helmínticos dos indivíduos parasitados e manejo adequado do modo de vida de animais de estimação, priorizando o uso de rações comerciais e evitando acesso á rua, são também importantes no controle das verminoses.




Toxocara canis


                                             
             Ancylostoma caninum                                                            Larva migrans cutanea



Dipylidium caninum