quinta-feira, 15 de março de 2012

Doença do Trato Urinário Inferior Felino

Gatos domésticos são constantemente acometidos pela Doença do Trato Urinário Inferior Felino (DTUIF). Trata-se de uma enfermidade que compreende várias desordens do trato urinário inferior (bexiga e uretra), e que se inicia em sua grande maioria com um processo inflamatório causado pela formação de urólitos nestes órgãos, popularmente conhecidos como cálculos urinários.

Felinos acometidos pela DTUIF podem manifestar um ou mais dos diferentes sintomas associados ao comprometimento das vias urinárias inferiores. Geralmente apresentam hematúria (sangue na urina) e/ou polaquiúria (aumento na frequência de micção, porém com pouca ou nenhuma quantidade de urina). Estes sintomas podem passar despercebidos e culminarem com o agravamento do problema, pois o processo inflamatório do qual o trato urinário é acometido leva à formação de restos celulares e coágulos levando à formação dos chamados tampões uretrais, que associados à presença de cristais ou cálculos, provoca na maioria dos casos, a obstrução uretral. Este é o sintoma mais dramático da patologia e normalmente requer atendimento emergencial, uma vez que o paciente acometido já se apresenta extremamente debilitado devido à série de alterações bioquímicas sanguíneas causadas pela retenção urinária.

Por algum tempo atribuiu-se a formação de cálculos urinários aos alimentos secos industrializados, que por apresentarem altos níveis de cálcio, magnésio e fosfatos predispunham à formação de urólitos. Entretanto, estudos atuais demonstram que a precipitação de cristais que levam a formação dos cálculos ocorrem muito mais em função do potencial hidrogeniônico urinário (pH urinário), sendo mais importante sua manutenção em faixa ideal ( 6,1 a 6,5) do que o controle na ingestão de minerais para a prevenção do distúrbio. 

O tipo de dieta oferecida pode interferir diretamente no pH urinário. As ricas em proteínas de origem animal, tendem a produzir urina ácida. Em contrapartida, dietas ricas em cereais e vegetais, de um modo geral, tendem a formar uma urina alcalina. Basicamente, se o pH urinário for ácido (abaixo de 6,1) pode ocorrer a formação de cristais de oxalato de cálcio e pH urinário alcalino (acima de 6,5) pode levar a formação de cristais de estruvita, e o equilíbrio no fornecimento de nutrientes, normalmente obtidos em dietas industrializadas de boa qualidade, ajuda na prevenção do problema. A frequência no fornecimento da alimentação também interfere no pH. Estudos revelam que o livre acesso à ração, e também da água, que leva a ingestão de pequenas porções de ração várias vezes ao longo do dia, mantém o pH urinário com valores constantemente próximos à faixa considerada ideal e evitando assim a precipitação dos cristais.


Outros fatores, considerados de risco podem elevar a incidência de DTUIF. A idade, por exemplo, pode ser considerada como um destes, uma vez que é raro seu surgimento em felinos com menos de 1 ano de idade. Por sua vez , indivíduos acima desta faixa de idade até 4 anos de vida são os mais frequentemente acometidos. 

Animais do sexo masculino possuem a peculiaridade de apresentarem sintomatologia mais grave, já que é neste indivíduo, devido ao diâmetro e comprimento da uretra, que ocorrem as obstruções. Fêmeas são igualmente acometidas, mas por possuirem uretra curta e larga , eliminam mais facilmente o urólito, dificilmente ocorrendo a obstrução.

Outro provável fator importante de risco se deve ao estado reprodutivo, já que animais castrados tendem a manifestar obesidade. Tal condição torna o indivíduo sedentário e a menor atividade física diminui a necessidade de ingestão de água, que culminará em maior retenção urinária e por consequência uma maior concentração de urina predispondo a precipitação de cristais e levando à formação do cálculo. 

Menor ingestão de água é um fator determinante para o aparecimento de DTUIF, não só pelo fato mencionado no parágrafo anterior, como também pelo próprio hábito da espécie felina, que possui grande capacidade de retenção de fluidos , o que a leva a suportar maiores períodos de privação de água. O comportamento extremamente higiênico, outra característica marcante desta espécie, também pode contribuir para o surgimento da doença, já que caixas de areia sujas e/ou colocadas próximas aos locais de alimentação estimulam o felino à retenção de urina.

Por se tratar de uma enfermidade extremamente frequente em animais da espécie felina e por sua gravidade, principalmente nos casos de obstrução uretral, a DTUIF deve ser alvo de grande atenção por parte do profissional médico veterinário, já que apenas ele poderá orientar devidamente os proprietários de gatos a adotarem medidas de manejo direcionadas para uma alimentação adequada e aos hábitos peculiares nesta espécie. Tais medidas serão fundamentais na prevenção do problema, entretanto uma vez instalado, este deve ser imediatamente detectado para que não se agrave. A manifestação dos sintomas, mesmo que em estágios iniciais determinam a necessidade de uma avaliação clínica, e o monitoramento destes animais, quando diagnosticado o distúrbio, deve ser realizado frequentemente durante toda sua vida , através de acompanhamento clínico, laboratorial e por exames de imagem, todos de acordo com a indicação do profissional responsável.

Artigo(s) recomendado(s): http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/bjvras/v35n2/35n2a04.pdf

http://www.ceres.ufv.br/CERES/revistas/V53N310P08906.pdf

http://periodicos.ufersa.edu.br/revistas/index.php/acta/article/view/1446/4501




Felino em posição de urinar (Polaquiúria)











quinta-feira, 1 de março de 2012

Hipotiroidismo

Hipotiroidismo canino é a endocrinopatia (doença hormonal) mais comum nesta espécie e se caracteriza  pela deficiência na produção dos hormônios tiroxina ( T4) e tetraiodotironina (T3), ambos secretados pela glândula tiroide. 

Tal glândula se localiza lateralmente à traquéia, na região dos anéis traqueais proximais e produz principalmente T4 e níveis menores de T3. É regulada por um hormônio produzido pela hipófise denominado TSH ( hormônio tirostimulante) que se liga a receptores na própria glândula tiroide ativando uma série de eventos que culminam na liberação de T3 e T4. Assim, de acordo com os níveis de TSH no sangue, a  tiroide aumenta ou diminui seu funcionamento. 

Hormônios tiroideanos influenciam a atividade metabólica de quase todos os tecidos, sendo responsáveis pelo metabolismo de proteínas , carboidratos e gordura, além de atuarem no crescimento e maturação fetal,  fluxo sanguíneo e débito cardíaco, respiração , digestão e função reprodutora e do sistema nervoso central.  Também atuam na fisiologia de diversas outras glândulas do organismo.

Pacientes portadores de hipotiroidismo possuem ação deficiente dos hormônios tiroideanos sobre seus órgãos-alvo, secundária à secreção insuficiente de T4 e T3. A principal causa da doença no cão adulto se deve a um distúrbio autoimune, que induz, com o passar do tempo, à atrofia da tiroide, apesar de , inicialmente, ocorrer um aumento de seu volume denominado bócio. Dependendo da evolução e da expressão clínica do distúrbio, o hipotiroidismo pode ser subclínico (presença de sinais leves a moderados) ou clínico ( presença de sinais clássicos da doença).

Hipotiroidismo subclínico constitui a primeira fase da doença e se caracteriza por aumento da concentração de TSH , com níveis de T4 normais. Isto se explica pela manutenção dos níveis sanguíneos de T4, apesar da diminuição de sua secreção pela glândula tiroide, que já provoca, nesta fase alterações em diversos tecidos. Conforme a doença evolui e a secreção de T4 fica ainda mais reduzida, a hipófise aumenta a produção de TSH para forçar a produção de T4 e manter o indivíduo comprometido em condições normais. As primeiras alterações são vistas no metabolismo de gordura, levando ao aumento de colesterol. O sistema imunológico também é afetado nesta fase da doença, levando a dermatopatias devido a infecções recorrentes.

Sinais clínicos evidentes caracterizam a doença em hipotiroidismo clínico, fase a qual , já ocorre comprometimento severo na secreção diária de T4, já havendo diminuição considerável de seus níveis sanguíneos. Surgem manifestações dermatológicas intensas que se apresentam com seborréia seca ou oleosa, além de alopecia (falha no pelo), principalmente na região da cauda. Apenas 20% dos cães acometidos manifestam alopecia generalizada. Obesidade é uma manifestação frequente devido ao comprometimento do metabolismo de gordura, assim como de glicose, levando o indivíduo comprometido a apresentar letargia e sonolência. Alterações na função reprodutiva, como ausência de cio em fêmeas ou baixa libido em machos, também são manifestações comuns. Também merecem destaque as alterações cardiovasculares, como bradicardia e diminuição da contratilidade do miocárdio, e neuromusculares, como convulsões, ataxia (incoordenação dos movimentos musculares voluntários) e neuropatia facial levando ao mixedema facial (edema na face e pálpebras),  e determinando um aspecto de "facies tragica" ( expressão traduzida do latim para o português como "rosto de tragédia" ).

O diagnóstico de hipotiroidismo é feito através de exame clínico, laboratorial e de imagem, cuja interpretação, a cargo do clínico veterinário, determinará o tratamento da enfermidade, através da reposição de hormônio, além da correção dos distúrbios causados pela queda dos níveis de hormônios tiroideanos. Cães adultos e idosos  são estatisticamente os mais comumente acometidos, entretanto filhotes podem ser portadores de hipotiroidismo congênito ou juvenil, adquirido durante o período de crescimento. Assim, independente da idade do cão, qualquer manifestação clínica compatível com as anteriormente citadas, ou até mesmo sinais inespecíficos, devem representar motivo de investigação desta doença hormonal de bom prognóstico, desde que precoce e adequadamente tratada.

Artigo(s) recomendado(s): http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/bjvras/v43n6/06.pdf

http://ddd.uab.cat/pub/clivetpeqani/11307064v16n2/11307064v16n2p111.pdf

http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/bjvras/v45n4/05.pdf



Boxer com piodermite facial recorrente
e aspecto de facies tragica




Escassez de pelagem na cauda ( "cauda de rato")