segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Epilepsia

Epilepsia é um distúrbio cerebral crônico, caracterizado por crises convulsivas recidivantes, com ou sem perda de consciência. É a doença neurológica mais comum em cães, com uma prevalência estimada de até 5,7%, e pode ser considerada uma doença heterogênea , já que possui diversas etiologias e diversos padrões de manifestação, sempre, entretanto, apresentando como principal sintoma clínico a convulsão.

Convulsão é definida como uma descarga elétrica paroxística (ocorre em crises), descontrolada e transitória dos neurônios cerebrais com envolvimento motor, podendo ser de origem intra ou extracraniana. Para que se desencadeie, é necessário que ocorra desequilíbrio entre os mecanismos excitatórios e inibitórios dos agentes neurotransmissores, favorecendo a  excitação neuronal e tornando os neurônios epilépticos, que quando acometidos em maior número irão determinar uma maior freqüência de crises convulsivas.

As crises são compostas de quatro fases, sendo a primeira delas, denominada Pródromo e caracterizada por uma alteração de comportamento que a precede em horas ou dias, durante o qual o animal pode manifestar sinais de agitação. A segunda fase é denominada Aura e também se caracteriza por alteração comportamental o que normalmente a confunde com o Pródromo,  podendo considerar as duas primeiras fases como uma única sendo chamada fase pré-ictal. A crise convulsiva propriamente dita é denominada Icto e pode ser generalizada ou focal. Quando a disfunção envolve os dois hemisférios cerebrais a crise é generalizada e o paciente se apresenta inconsciente, em posição de opistótono (pescoço virado para trás) , com os membros estendidos, e em seguida manifestando movimentos de corrida ou pedalagem. Os movimentos mastigatórios são comuns e o animal apresenta midríase (pupila dilatada) , sialorréia (salivação excessiva) , e micção e defecação involuntárias. Quando na forma focal,  as convulsões se originam de uma área específica do córtex cerebral causando manifestações restritas a uma parte do corpo, como contrações involuntárias de músculos faciais ou de um membro. Frequentemente as crises focais se propagam, resultando em  convulsão generalizada. A quarta e última fase é denominada Pós-ictal em que alguns pacientes podem manifestar hiperatividade e inquietude por até um dia inteiro, se apresentando como se estivessem desorientados ou cegos.

Conforme mencionado anteriormente a epilepsia possui diversas etiologias. A  causa mais comum em cães é denominada primária, hereditária ou idiopática. Suspeita-se ter origem genética e resulta de um defeito bioquímico nas células do cérebro ou do seu meio, em que não é detectável lesão estrutural, mesmo através de exame histopatológico. É mais frequente em cães de raça pura e as primeiras crises ocorrem normalmente entre seis meses e três anos de idade. Outras causas de epilepsia se enquadram na classificação denominada secundária ou adquirida. Pode ocorrer em função de alterações congênitas, sendo a hidrocefalia o distúrbio de desenvolvimento mais comum, causas inflamatórias (meningoencefalomielite granulomatosa) ou infecciosas (cinomose), metabólicas ( hipoglicemia, hipocalcemia, hipomagnesemia, hipóxia, alterações hepáticas, falência renal, desidratação), vasculares (hipertensão, coagulopatias, tromboembolismo), neoplasias intracranianas, intoxicações e traumatismos cranianos.

Por se tratar de um distúrbio bastante comum e de forte impacto emocional para os donos do animal, além de poder interferir negativamente com o estado geral de saúde do paciente epiléptico e com sua qualidade de vida, a epilepsia deve ser rapidamente diagnosticada. O controle das convulsões é facilmente obtido através de medicações anticonvulsivantes, na maioria dos casos, principalmente se for de origem primária. Aquelas de origem secundária deverão receber tratamento específico simultaneamente ao controle das crises convulsivas. A intervenção médica consistirá em determinar terapia anticonvulsiva e avaliar o paciente clinica e laboratorialmente, sem deixar de lado os exames de imagem, e quando possível, o eletroencefalograma, para que seja possível apontar a causa da epilepsia. O paciente portador desta importante doença, deverá ser acompanhado por toda a vida, ainda que estejam controladas as convulsões, já que o mesmo pode sofrer crises eventualmente. Se bem assistido, um cão epiléptico pode viver naturalmente, sem que haja restrição das atividades rotineiras de um indivíduo normal.


Artigo(s) consultado(s):

http://www.qualittas.com.br/principal/uploads/documentos/Epilepsia%20em%20Caes%20-%20Caren%20Arisio%20de%20Lacerda.PDF

https://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/867/5/Epilepsia%20em%20Animais%20de%20Companhia.pdf

http://repositorio.utad.pt/bitstream/10348/401/1/msc_saammlaureano.pdf






segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Giardíase

Das patologias que freqüentemente acometem animais e seres humanos, a giardíase tem despertado maior interesse dos pesquisadores, possivelmente por representar uma zoonose, além de causar, em animais jovens, distúrbios gastrointestinais que podem submeter o paciente ao risco de complicações à sua saúde e até mesmo óbito eventualmente. 

Possui como agente etiológico o parasito protozoário entérico denominado Giardia lamblia, e é considerada a moléstia protozoal intestinal clinicamente mais importante em cães e gatos. Sua prevalência apresenta índices variáveis, dependendo da localização geográfica, do método utilizado para o diagnóstico e da população estudada, entretanto , sabe-se que é alta em todo o mundo. No Brasil, trabalhos revelam prevalência de 5% em cães com dono e até 72% em cães de rua. Na população humana, a prevalência do parasita varia entre 2% em países desenvolvidos e mais de 30% em países subdesenvolvidos. Outros estudos epidemiológicos, embora revelem seu potencial zoonótico, não indicaram que a posse de um animal de estimação seja fator de risco significativo para giardíase em humanos, não deixando de lado a influência de cuidados de higiene rotineiros no dia-dia das pessoas. Tanto em animais quanto em seres humanos, a prevalência de giardíase é inversamente proporcional à idade do hospedeiro (quanto menor a idade maior o número de indivíduos parasitados), em função da maturidade imunológica e de maior propensão à ingestão de material fecal.

O protozoário G. lamblia possui um ciclo de vida representado por dois estágios: Trofozoíto e Cisto. Trofozoíto é o estágio ativo e móvel do microrganismo, que habita o intestino delgado do hospedeiro e se encontra aderido à parede intestinal. Embora seja a forma causadora da doença, não apresenta capacidade invasora ou destrutiva direta. Cisto é a forma infectante da doença, localizado junto às fezes, resistente ao ambiente externo e transmissível ao hospedeiro susceptível. O ciclo da doença é direto, ou seja, não necessita de hospedeiros intermediários ou vetores. O indivíduo ingere o cisto (forma infectante), e em contato com o processo de digestão, ele se rompe liberando dois trofozoítos. Estes , por sua vez se instalam na luz intestinal se aderindo às células aonde sofrem novo encistamento, sendo eliminados ao ambiente através das fezes em um período variável entre 7 e 14 dias.

Após sua eliminação no ambiente externo junto às fezes, aonde pode sobreviver por longos períodos , o cisto de G. lamblia contamina o ambiente, podendo ser ingerido. No caso de animais a contaminação pode acontecer de forma direta, já que o contato com as fezes, muitas das vezes havendo até sua ingestão (coprofagia), é muito comum, principalmente em locais com aglomerado de cães ou gatos. A contaminação em seres humanos, normalmente ocorre através da ingestão de água ou alimentos contaminados pelo cisto.

A sintomatologia clínica principal ocorre em função da aderência do trofozoíto à célula intestinal ocasionando distúrbios gastrointestinais. Alteração na consistência das fezes que tendem a ficar pastosas a líquidas, seu odor fétido e a frequência aumentada de defecação representam o processo diarreico, que pode levar ao quadro de prostração, perda de apetite e desidratação. A manifestação da diarreia ocorre de forma crônica e intermitente. Alguns animais podem apresentar perda de peso, febre, vômitos e dor abdominal. Em animais adultos a giardíase pode ser assintomática, e o estado nutricional além da resposta imunológica pode determinar o aparecimento dos sintomas, bem como sua intensidade.

Quanto às medidas preventivas da giardíase em animais, é pertinente salientar a importância da higiene do ambiente em que vivem, principalmente no caso de canis ou gatis, utilizando produtos de ação desinfetante diariamente, após limpeza do local. No caso de alteração do aspecto das fezes ou qualquer outro sinal, como aqueles anteriormente citados, o profissional médico veterinário deverá ser acionado. Giardíase precocemente diagnosticada, o que geralmente não acontece por meio de exames laboratoriais convencionais, em função da eliminação intermitente de parasitas pelo hospedeiro, é facilmente tratada. Outro fator importante a ser destacado pelo clínico, é quanto às medidas profiláticas a serem adotadas, já que outros animais e pessoas podem também se contaminar. Ações usuais de higiene como limpeza adequada das mãos , lavagem dos alimentos e uso de água filtrada são importantes na prevenção da doença em seres humanos.


Artigos Consultados: http://patologia.bio.ufpr.br/posgraduacao/teses/2007/dissertacaopaola.pdf 

http://www.vetanalises.com.br/VetAnalises/down/Giardiase.pdf

http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faenfi/article/viewFile/5487/5912

http://www.scielo.br/pdf/abmvz/v55n6/19385.pdf

http://www.scielo.br/pdf/%0D/cr/v35n1/a20v35n1.pdf



Imagem ilustrativa de G. lamblia


Cisto de G. lamblia
Trofozoítos de G. lamblia