terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ectoparasitos ( pulgas e carrapatos )


Alguns artrópodes podem viver como ectoparasitos sobre os animais colocando sua saúde em risco. Sua maioria promove ação irritante e/ou espoliativa sobre o hospedeiro , além de transmitir doenças infecciosas e parasitárias. Dentre os mais comumente observados se encontram o Ctenocephalides sp (Pulga) e o Rhipicephalus sanguineus (Carrapato) , que constituem as espécies predominantes de ectoparasitos em animais urbanos,  tanto domiciliados quanto errantes, desempenhando assim importância relevante  na saúde e no bem-estar de cães e gatos.


  • Pulga ( Ctenocephalides sp )
Pulgas são artrópodes da classe Insecta, hematófagos (se alimentam de sangue) de tamanho pequeno , cor castanho-escura , desprovidos de asa e com três pares de patas, sendo o último par desenvolvido para saltos.  Embora existam mais de 2.000 espécies e sub-espécies no mundo, a Ctenocephalides canis e Ctenocephalides felis  são as espécies mais comuns em cães e gatos, sendo a segunda mais amplamente disseminada e portanto a dominante em ambos.


Após se alimentar do sangue de um hospedeiro, uma fêmea pode depositar de 20 a 40 ovos por vez, durante um período de 21 dias, que por sua vez irão cair imediatamente, contaminando o ambiente. Sabe-se que uma pulga pode depositar cerca de 2000 ovos em toda a sua vida. Destes ovos, que constituem 50% de infestação em um ambiente contaminado, nascem as larvas em 1 a 10 dias , dependendo do clima. Estas se alimentam de detritos orgânicos e fezes das próprias pulgas, e possuem características negativamente fototáxicas (fogem da luz) e positivamente geotrópicas (se movem para baixo) , o que as faz se moverem para o fundo de fibras de tapete, colchão e sofá. Este estágio dura entre 5 a 11 dias, também de acordo com as condições climáticas e com a disponibilidade de alimento, e representa 35% da infestação de um ambiente. Após período de até 11 dias, formam-se casulos dentro dos quais ocorre a formação da pupa, que em condições ambientais adequadas podem se transformar em pulgas adultas em apenas 5 dias, podendo entretanto, em condições desfavoráveis, como a ausência de alimento no local, permanecerem no casulo por até 140 dias. Esta fase representa 10% da infestação em um ambiente contaminado. Pulgas recém-emergidas de seus casulos são atraídas aos seus hospedeiros por estímulos como a produção de calor e a realização de movimentos, iniciando  o repasto sanguíneo imediatamente e produzindo ovos após 48 horas. Pode sobreviver por até 3 semanas sem se alimentar e representa apenas 5% da infestação de um ambiente. Normalmente, sem intervenção na infestação, o ciclo de vida de uma pulga se completa em 3 a 4 semanas.


A infestação por pulgas pode gerar algumas alterações na saúde de cães e gatos. A saliva possui ação anti-coagulante. Assim, sua liberação , necessária durante a alimentação deste parasito, expõe seu hospedeiro a outras substâncias químicas presentes, causando irritação e prurido (coceira), em maior ou menor grau de acordo com o indivíduo parasitado. Alguns destes são hipersensíveis à saliva da pulga, chegando a manifestarem reações alérgicas intensas, que geram prurido excessivo , podendo haver até auto-mutilação, e consequente infecção de pele. Além disso, o parasito é hospedeiro de um  endoparasito interno (verme) denominado Dipylidium caninum, comum em cães, sendo assim co-responsável pela infestação e manifestação desta verminose nesta espécie. Grandes infestações por pulgas, também podem provocar anemia, pelo hábito alimentar hematófago do parasito, principalmente em filhotes. Felinos são eventualmente acometidos por um parasita de hemácias, denominado Haemobartonella, causador da hemobartonelose, que possui em um de seus meios de transmissão a picada de pulga infectada. Não é comum a ocorrência de enfermidades em seres humanos quanto à infestação por pulgas.


Tendo em vista que 95% das pulgas de um determinado ambiente, se apresenta em forma de ovo , larva ou pupa, e que estes estágios do parasito  se encontram fora do hospedeiro, tem-se no tratamento ambiental a base do controle das infestações. Entretanto a dedetização contra pulgas nem sempre é eficaz, levando-se em consideração as variações em seu ciclo. Aplicações inseticidas somente eliminarão as larvas e as pulgas adultas, sendo importante as reaplicações, que podem ser necessárias durante um período de até 9 meses, para que todas as larvas ecludam de seus ovos e todas as pulgas emerjam de suas pupas, podendo assim serem atingidas. Um método bastante recomendável é a limpeza mecânica, sendo muito útil o aspirador de pó, a ser aplicado nas frestas dos pisos, tapetes e carpetes e cantos de sofás. Existem no mercado diversos tipos de medicamentos, com inúmeras formas de atuação, tanto de uso tópico quanto oral, utilizados na prevenção e no tratamento das infestações por pulgas, devendo o profissional médico veterinário ser consultado para devida orientação.




Ctenocephalides sp

Pulgas no pêlo
                     

    
                                         


  • Carrapato
No Brasil há diversas espécies deste parasito frequentemente observados em animais. A  de maior destaque, devido à sua grande prevalência, é denominada Rhipicephalus sanguineus, e trata-se de um artrópode da classe Arachnida , hematófago, de cor marrom e tamanho que pode chegar a 11mm no caso de fêmeas recém-alimentadas (fêmea ingurgitada ou teleógena). É observada com grande frequência em cães urbanos, sendo descrita na literatura como uma das principais espécies de parasitos destes animais domésticos.

O R. sanguineus passa por quatro estágios em seu ciclo de vida: ovo, larva , ninfa e adulto. A larva eclode do ovo e se alimenta no hospedeiro por alguns dias, quando então faz uma "troca de pele" no ambiente, denominada ecdise, se transformando em ninfa. Caso a larva não encontre alimento, pode sobreviver por até mais de 500 dias. A ninfa também se alimenta por alguns dias, podendo, no entanto, sobreviver por até 180 dias sem se alimentar. Realiza nova ecdise, também fora do hospedeiro e evolui para o estágio adulto. Neste estágio, os carrapatos machos e fêmeas se alimentam de sangue do indivíduo parasitado por aproximadamente 4 dias, copulando em seguida. Após a alimentação, uma fêmea pode tornar-se ingurgitada entre 6 e 50 dias, e realizar uma única postura, que pode durar até 29 dias, morrendo em seguida. São depositados aproximadamente 2000 ovos , que eclodem no ambiente em 4 dias. O carrapato adulto é muito resistente podendo sobreviver por até 580 dias sem a presença do hospedeiro. Esta espécie de carrapato possui hábito nidícola, ou seja vive no abrigo de seu hospedeiro, e quando não estão parasitando , ficam escondidos em frestas e buracos existentes no ambiente habitado pelo cão. Desta forma, todo o ciclo ocorre neste local, e uma vez detectada a presença de um cão pelo carrapato, este sai ativamente de seu esconderijo e vai de encontro ao animal para se alimentar. Ao final de um repasto sanguíneo (alimentação),  os carrapatos se desprendem indo a procura de um local para se esconder. O que se observa é um comportamento de "caminhar para cima", sendo muito comum a visualização de carrapatos subindo pela parede a fim de se abrigarem em locais altos.


Por exercerem a hematofagia durante o parasitismo, os carrapatos comportam-se como vetores de alguns importantes patógenos. O R. sanguineus é o vetor natural da Babesia canis e da Erlichia canis, agentes etiológicos da babesiose e da erlichiose canina respectivamente, ambas consideradas graves, podendo ocasionar óbito, principalmente em casos diagnosticados tardiamente. A espoliação do hospedeiro nas grandes infestações, e irritação no local de fixação do carrapato na pele, são alterações relevantes. Estudos recentes revelam o potencial de transmissão de leishmaniose canina, através da picadura do carrapato. 


Considera-se que , baseado no ciclo de vida do R. sanguineus , apenas 5% da população deste carrapato esteja em parasitose. Os outros 95% se encontram no ambiente, nas fases de vida livre. Em função disto, o tratamento carrapaticida no hospedeiro surte pouco ou nenhum efeito, sendo necessário o controle da população de carrapatos no ambiente. A dedetização ambiental é viável somente quando o cão vive no interior da residência , ou em sua área externa com canis ou casinhas como abrigo , cuja área total pode ser dedetizada. Em geral, três a quatro aplicações de produtos adequados para este fim, com intervalos quinzenais podem ser suficientes para eliminar infestações. Uma observação importante, é que a aplicação do produto só será  eficiente se realizada no alto das paredes , telhados de casinhas ou alto de muros, devido ao comportamento de "caminhar para cima", já mencionado anteriormente. As infestações pelo R. sanguineus podem ocorrer também na residência vizinha, o que torna necessário uma ação conjunta a ser tomada simultaneamente quando vizinhos possuam cães infestados por carrapatos, já que estes parasitos compõem uma única população que parasita diferentes hospedeiros em casas próximas. Em algumas situações , é inviável a dedetização diretamente no local onde vive o cão, como em grandes quintais ou no interior de algumas casas ou apartamentos. Neste caso deve ser adotado o uso de produtos de ação preventiva no próprio animal. Estes produtos devem ser utilizados com base em seu período de ação, devendo ser reaplicados sempre ao término deste tempo, para que se obtenha uma grande quantidade de carrapatos em contato com o produto, impedindo o fechamento de seu ciclo de vida. A orientação veterinária é de fundamental importância para a adoção de técnicas e fármacos direcionados para o controle adequado da infestação por carrapatos.


                                                                                                 
Riphicephalus sanguineus
                                                                                                                                     
Fêmea depositando os ovos

Estágios do carrapato



                  


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