sábado, 1 de setembro de 2012

Displasia Coxofemoral em cães

Displasia coxofemoral (DCF) é uma alteração do desenvolvimento da articulação da cabeça do fêmur com o acetábulo, descrita como uma malformação caracterizada por sua natureza genética , quantitativa (quanto maior o número de ascendentes displásicos , maior a possibilidade de aparecimento da displasia), multifatorial e extremamente complexa, que comumente resulta em alterações degenerativas irreversíveis. Sua transmissão hereditária torna o indivíduo susceptível à apresentação da patologia, principalmente se houver associação com fatores nutricionais , biomecânicos e de meio ambiente, piorando a condição da displasia.

Nas espécies domésticas, os caninos são os mais frequentemente acometidos por DCF, apesar de haver descrição da patologia em bovinos, equinos e felinos. Sua frequência varia consideravelmente entre raças, sendo comumente diagnosticada em cães de médio e de grande porte, embora atualmente, a frequência de diagnósticos de DCF em cães de raças pequenas como Poodle , Pinscher e Yorkshire esteja crescendo na rotina clínica veterinária. As raças mais acometidas , principalmente por seu maior porte e crescimento rápido , são Pastor Alemão , Rotweiller , Labrador Retriever , São Bernardo e Bulldog Inglês. 

A articulação coxofemoral é constituída pela cabeça do fêmur e por um receptáculo côncavo situado na pelve denominado acetábulo. Possui configuração anatômica que proporciona estabilidade , congruência e amplitude de movimentos. A cabeça do fêmur é coberta de cartilagem e nela se insere o ligamento redondo. Sob ela se encontra uma delgada lâmina óssea denominada osso subcondral. O acetábulo é uma cavidade formada pelo ossos ílio , ísquio , púbis e acetabular. Possui uma região denominada superfície semilunar composta por osso subcondral resistente e espesso próprio para suportar pressões durante a marcha ,  e em sua fossa se insere os ligamentos redondo e acetabular. A articulação é ainda composta pela cápsula articular e pela musculatura regional.

DCF é uma doença representada pela disparidade entre a massa muscular pélvica e o rápido crescimento do esqueleto, o que altera significativamente a biomecânica da articulação do quadril. As alterações ósseas em cães portadores da doença ocorrem devido à incapacidade da massa muscular em manter a congruência entre as superfícies articulares da bacia, mais precisamente o acetábulo e a cabeça do fêmur, tornando a estrutura articular comprometida instável e levando desde mínimas alterações até destruição total da articulação, com esta variação ocorrendo de acordo com o grau de comprometimento.

Diversas teorias possibilitaram concluir que a principal etiologia da DCF tem origem genética, sendo permitido prever que 85% dos filhotes serão displásicos se ambos os pais também o forem. Entretanto outros fatores também são apontados como causadores da doença como hiperestrogenismo materno (contato excessivo do feto ao estrógeno da mãe durante a gestação), manejo alimentar (dieta rica em proteína, cálcio e fósforo acelera o crescimento do filhote) , condições ambientais ( pisos lisos submetem o cão a escorregões que irão aumentar o ângulo de abertura entre acetábulo e cabeça do fêmur), deficiência de vitamina C e exercícios físicos excessivamente intensos.

Cães geneticamente predispostos à DCF apresentam articulações normais ao nascimento, mas após duas semanas de vida já apresentam estiramento da cápsula articular e do ligamento. Posteriormente ocorre inflamação da membrana sinovial (sinovite) com efusão e edema articular levando a alterações na membrana e na cartilagem articular. Estas alterações aumentam o atrito entre as superfícies articulares provocando fissuras na cartilagem. Com a presença de efusão articular e estiramento progressivo da cápsula e dos ligamentos, ocorre aumento da instabilidade das articulações coxofemorais, provocando subluxação da cabeça do fêmur durante a marcha , com consequente alteração na relação de forças que atuam sobre o esqueleto,  que por sua distribuição anormal provoca microfraturas no osso subcondral. Estas microfraturas, posteriormente se consolidam, diminuindo a elasticidade do local, levando ao aumento do estresse causado pelo atrito ,  e intensificando a degeneração. O avanço do processo degenerativo acarreta comprometimento de todas as estruturas envolvidas com a articulação coxo-femoral, e por ser uma doença progressiva a agressão é constante e ininterrupta, ocasionando o aparecimento da sintomatologia clínica, que é variável quanto à sua intensidade.

Os sinais clínicos geralmente aparecem a partir dos 6 meses de idade, em que o animal apresenta desde claudicação (manqueira) discreta até incapacidade locomotiva. Cães acometidos por DCF podem apresentar dificuldade em caminhar, diminuição das atividades físicas e sinais constantes de dor. Outros sinais são detectados durante a avaliação clínica realizada pelo médico veterinário, que deverá estabelecer conduta para confirmação diagnóstica por meio de imagens radiográficas das articulações coxo-femorais, devendo estas serem correlacionadas ao histórico , raça do animal , idade e achados físicos. Entretanto o diagnóstico radiográfico só é confiável em cães acima de 12 meses de idade, havendo grande probabilidade de diagnóstico incorreto antes disso, devido ao fechamento incompleto das placas de crescimento ósseo (placas epifisárias) do cão. 

Por se tratar de uma doença de diversas etiologias,  a DCF pode ser prevenida de várias maneiras. A principal seria o controle do cruzamento entre cães displásicos, devendo estes serem esterilizados, impedindo assim , a transmissão dos genes para displasia a seus descendentes. Manejo alimentar e ambiental adequado , também são importantes além de facilmente ajustáveis. É de fundamental importância a adoção destes métodos de prevenção da displasia , em função da dificuldade de recuperação do indivíduo acometido, uma vez que trata-se de uma patologia progressiva e sem cura. As alternativas de tratamento são apenas paliativas e para o alívio da dor, além de serem dependentes das condições físicas gerais do animal, de sua idade e de seu tamanho e peso, não impedindo a progressão da doença articular degenerativa.

Artigos consultados:

http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/52505/000828017.pdf?sequence=1

http://www.sumarios.org/sites/default/files/pdfs/50434_5939.PDF

http://www.scielo.br/pdf/pvb/v27n8/a03v27n8.pdf

http://www.revista.inf.br/veterinaria11/revisao/edic-vi-n11-RL33.pdf

http://www.sovergs.com.br/conbravet2008/anais/cd/resumos/R0688-3.pdf









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