quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Pediatria veterinária


Na rotina veterinária, os cuidados pediátricos representam um componente integral da saúde geral de cães e gatos neonatos. Estes cuidados se estendem do nascimento aos seis meses de vida do animal sendo este  um período em que se encontra vulnerável a diversas desordens infecciosas nutricionais e metabólicas, devido à sua imaturidade fisiológica associada à quebra de barreiras físicas , químicas e microbiológicas presentes no ambiente intra-uterino durante a fase gestacional. Desta forma cães e gatos requerem atenção especial durante as diversas fases de seu desenvolvimento, recebendo classificação distinta de acordo com a idade para que sejam respeitadas as peculiaridades de acordo com o tempo de vida. Esta classificação é variável de acordo com as fontes consultadas , podendo haver alguma controvérsia entre alguns artigos.

Do nascimento até a segunda semana de vida o neonato se encontra na Fase Neonatal. Durante este período o animal possui dependência materna integral, inclusive para micção e defecação, ambos estimulados pela lambedura da mãe. Filhotes nesta fase dedicam 30% de seu dia à alimentação e os 70% restantes ao sono. Os olhos e o conduto auditivo ainda estão fechados, o que torna o tato, o paladar e o olfato imprescindíveis à sobrevivência já que são os únicos sentidos existentes auxiliando a amamentação e o aquecimento. Há durante este período uma incapacidade de manutenção da temperatura corporal sendo fundamental, para isto , a proximidade com a mãe e com os outros filhotes da ninhada. Em termos de função neurológica, já há algum desenvolvimento , principalmente quanto ao equilíbrio, que se torna necessário durante o ato da amamentação. Entre o fim da primeira semana e o término da segunda já se observa sustentação com os membros torácicos e pélvicos. Outro fator importante a ser destacado nesta fase é quanto à função digestiva, que devido ao processo natural de colonização bacteriana gástrica e intestinal, merece atenção quanto aos transtornos causados pelo uso de antibióticos no filhote ou na mãe durante a amamentação.

Ao término da fase neonatal inicia-se a Fase de Transição que compreende a terceira semana de vida do neonato. Este já é provido de competência audiovisual devido à abertura dos olhos e dos ouvidos. Também ocorre um maior desenvolvimento da função neurológica, bem como uma determinada independência materna. O desenvolvimento da função renal somente se completa ao término da terceira semana, portanto a incapacidade de excreção  de drogas através da urina, torna o neonato durante este período, susceptível à intoxicação por drogas e metabólitos. Já começam a manifestar sons, e ainda dependem da mãe para defecar e urinar.

Quando ocorre redução do tempo dedicado à alimentação e ao sono, observa-se o início das atividades sociais do filhote. Este comportamento sinaliza o início da Fase de Socialização que se inicia na quarta semana e se estende até a décima. O contato com outros animais e com seres humanos permite o aprendizado e define os padrões de comportamento futuros. Já ocorre maturidade renal e as respostas imunológicas se encontram completamente desenvolvidas sendo indicado, em torno da oitava semana de vida, o início da realização de programas vacinais.

Compreende o intervalo entre a décima semana e os seis meses de idade,  quando entra na puberdade, a Fase Juvenil a qual é marcada por mudanças graduais quando se estabelece o padrão de comportamento e conformação característicos do individuo adulto. Ocorre desenvolvimento através do crescimento corporal e do aperfeiçoamento das funções motoras do neonato. Possui características fisiológicas, como frequência cardíaca , respiratória e temperatura corporal , similares aos indivíduos adultos, além do que já manifesta maior acurácia de sentidos como audição e visão. Ao término desta fase se relaciona o início da puberdade, logo o aumento das funções reprodutivas, determinando assim o completo desenvolvimento do organismo.

Em função das inúmeras peculiaridades observadas em cães e gatos do primeiro dia ao sexto mês de vida , médicos veterinários , criadores e proprietários devem dedicar atenção especial a estes indivíduos. Trabalhos estatísticos na área revelam índice de mortalidade em até 30% dos filhotes, tanto de caninos quanto felinos, antes do desmame e podendo se estender até a puberdade. Cuidados intensivos ao nascimento mantendo a ninhada sempre junta e com a mãe em local limpo e protegido previne os prejuízos à saúde dos recém-nascidos já que evita a queda de temperatura corporal e a hipoglicemia e desidratação causadas por uma amamentação insuficiente ou inadequada. A medida que se torna mais velho o neonato passa a depender menos da mãe, entretanto esta dependência é transferida à pessoa responsável por ele. Sendo assim cuidados com a higiene do local aonde estão alojados passam a ser imprescindíveis na prevenção de doenças. Outro fator importante e de responsabilidade do cuidador, é quanto à alimentação dos filhotes. Até o trigésimo dia o neonato deve se alimentar de leite materno, mas a partir daí dietas apropriadas devem ser adotadas, sendo recomendável a introdução de alimentos específicos para o processo de transição entre o leite e o alimento seco. Posteriormente recomenda-se a introdução de ração seca definitivamente, de preferência as industrializadas , em sacos fechados, de boa qualidade e direcionada para cães e gatos em fase de crescimento, por período a ser determinado sob orientação do médico veterinário. Início dos esquemas de vermifugação e vacinação, além de adoção de ações direcionadas ao manejo adequado de filhotes, também deve ser alvo de grande atenção por parte de todos os envolvidos com estes animais, nesta fase tão importante para um desenvolvimento saudável com reflexos positivos por toda sua vida.

Artigos consultados: http://www.cstr.ufcg.edu.br/mv_downloads/monografias/mono_cydia.pdf

http://www.cbra.org.br/pages/publicacoes/rbra/download/RB029%20Crespilho%20p3-10.pdf

http://www.fmv.utl.pt/spcv/PDF/pdf12_2008/165-170.pdf

http://www.biomedcentral.com/content/pdf/1751-0147-49-S1-S2.pdf









quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Síndrome de Cushing Canina


Síndrome de Cushing, também denominada Doença de Cushing ou Hiperadrenocorticismo é uma endocrinopatia bastante comum em cães e se refere às anormalidades clínicas e químicas que resultam da exposição crônica a concentrações excessivas de glicocorticóides. Esta síndrome foi descrita pela primeira vez na literatura médica em 1932, baseada em estudo realizado pelo Médico  Harvey William Cushing com 12 pacientes humanos com quadro clínico de obesidade, afecções cutâneas e hipertensão arterial, causado pela presença de neoplasia existente na hipófise. Em pacientes caninos foi descrita pela 1ª vez em 1939 e denominada Síndrome de Cushing Canino.


Hiperadrenocorticismo está diretamente relacionado às anormalidades existentes nas glândulas adrenais e eixo hipotalâmico-hipofisário, que em condições normais atuam em conjunto com o sistema nervoso central, constituindo uma entidade funcional importante para a manutenção da homeostasia do organismo. A relação anatomo-fisiológica existente entre estes órgãos é responsável pela síntese e regulação de diversos hormônios esteróides, com destaque para o cortisol, a aldosterona e os hormônios sexuais.


Sendo assim, esta anormalidade é considerada uma endocrinopatia que traduz-se em hipersecreção do hormônio cortisol pelo córtex da glândula adrenal. Pode surgir de forma espontânea ou por causa iatrogênica. No primeiro a moléstia é classificada como hipófiso-dependente (hipofisária) ou  adreno-dependente. Quando de origem iatrogênica, como o próprio nome diz , o hiperadrenocorticismo é provocado por tratamento médico. Pode ser classificada, também como funcional traduzindo-se em aumento transitório dos níveis séricos de cortisol no organismo devido a alterações ambientais ou orgânicas. 


Estima-se que 80% dos casos de hiperadrenocorticismo espontâneo canino sejam de origem hipofisária. Ocorre devido a uma hiperplasia de células corticotróficas que estão localizadas na hipófise e são responsáveis pela produção do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH). Este atua sobre a glândula adrenal estimulando a síntese e liberação de seus hormônios, principalmente o cortisol. Tal processo pode ocorrer, também, devido à presença de tumor na hipófise.


Estudos revelam que cerca de 15% dos casos  de hiperadrenocorticismo espontâneo ocorrem em função da existência de processo neoplásico nas glândulas adrenais, sendo classificado como adreno-dependente e por se localizar exatamente na adrenal é considerado de origem primária, já que é a glândula responsável pela produção e liberação de cortisol, que se tornará exacerbada na presença da neoplasia. Tumores adrenais são frequentemente unilaterais e secretam grande quantidade do hormônio. São diferenciados apenas através de análise histopatológica, sendo os mais comumente encontrados, os adenomas e adenocarcinomas , os quais se encontram em proporção idêntica no cão.


Conforme mencionado, o Hiperadrenocorticismo iatrogênico ocorre em função do uso excessivo de medicamentos a base de glucocorticóides, frequentemente adotados na prática clínica como tratamento de diversas patologias. Clinicamente, o paciente apresenta as mesmas alterações clínicas e laboratoriais do Hiperadrenocorticismo espontâneo, sendo necessário testes específicos para se estabelecer diagnóstico diferencial entre um e outro.


Quando de origem funcional, o aumento do cortisol sanguíneo é transitório e ocorre em função de alterações metabólicas relacionadas à síntese , secreção e regulação dos glucocorticóides. Esta condição se deve a alterações orgânicas e do meio externo, elevando os níveis séricos de cortisol e causando  hiperadrenocorticismo. Doenças inflamatórias, alterações hepáticas , renais , pancreáticas , traumatismo , dor , sexo (cadelas na fase diestral do ciclo reprodutivo com tendencia à manifestação da doença), predisposição racial (cães de pequeno porte ) , outras endocrinopatias como hipotiroidismo e diabete melito (nesta situação podem ser a causa do hiperadrenocorticismo ou serem provocadas por tal) e estresse (contenção , cirurgias , etc) podem induzir estado transitório de hiperadrenocorticismo, mas que pode evoluir cronicamente acometendo o indivíduo de forma persistente.


Hiperadrenocorticismo tem como apresentação clínica mais comum a poliúria (aumento do volume urinário), polidipsia (aumento da sede) e polifagia (aumento da fome). Anormalidades dermatológicas são frequentes e dentre várias outras condições como adelgaçamento da pele, seborreia, piodermite e hiperpigmentação, destaca-se a alopécia (perda de pêlo) normalmente bilateral, simétrica que atinge essencialmente o dorso, os flancos, o períneo e a face ventral do abdômen. Outra manifestação comum é a alteração da conformação física do paciente que apresenta distensão abdominal com aspecto de abdômen pendular. Esta se dá em função do acúmulo de tecido adiposo na cavidade abdominal e também hepático levando ao aumento deste órgão. Outras alterações como fraqueza muscular, dificuldade respiratória e alteração na função reprodutiva podem ser observadas.


Por acarretar graves alterações no paciente acometido, como hipertensão arterial, diabete melito, imunossupressão, infecções secundárias, pancreatite aguda, entre outras consequências, o hiperadrenocorticismo deve ser sempre abordado mediante diagnóstico clínico e complementar, já que  seu prognóstico depende desta abordagem, que irá determinar terapêutica adequada. Monitoramento constante deste paciente também é fundamental para obtenção de qualidade e aumento da expectativa de vida.

Artigo(s) recomendados:





domingo, 15 de julho de 2012

Catarata

Entende-se por catarata toda e qualquer opacidade existente no cristalino, cápsula do cristalino ou ambos impedindo a visão. É a doença mais comum causadora de cegueira em cães, eventualmente observada em gatos, proveniente de diversas causas intrínsecas e extrínsecas e podendo variar quanto ao tamanho , localização , forma e velocidade de progressão.

Cristalino é uma estrutura transparente, avascular e biconvexa composta de células organizadas longitudinalmente envolvida por uma membrana elástica chamada cápsula do cristalino e localizada imediatamente posterior à íris. Funciona como uma lente (por isto também denominada Lente), e possui um tecido altamente estruturado que promove a refração dos raios luminosos que entram no olho para um ponto na retina. No cão possui um volume de aproximadamente 0,5 ml uma espessura anteroposterior de 7 mm e um diâmetro equatorial de 10 mm.

Por apresentar bioquímica bastante complexa, a formação da catarata possui diversas causas. No âmbito geral a alteração se inicia a partir de distúrbios metabólicos que promovem mudanças morfológicas na cápsula do cristalino e em seu epitélio e fibras, provocando perda da transparência(opacidade) por ruptura das fibras do cristalino além da morte celular. Invariavelmente este processo é um denominador comum em todas as doenças do cristalino e devido à natureza e aparência variadas, a catarata recebe diversas classificações , sendo seu estágio de evolução e sua etiologia os métodos mais comumente utilizados como meio de classifica-la.


Em seu estágio de evolução a catarata pode ser classificada como incipiente quando ocorre opacidade inicial e focal com acometimento de até 20% do cristalino, entretanto neste caso não há perda da visão e a lesão pode ou não progredir. Catarata imatura apresenta maior extensão da opacidade, podendo acarretar prejuízos à visão. Estas ao se evoluírem se tornam cataratas maduras em que 100 % do cristalino se encontra acometido tornando o indivíduo funcionalmente cego. Algumas cataratas maduras evoluem ainda mais, sendo classificadas como Hipermaduras por se tornarem liquefeitas devido à proteólise, entrando em estado de reabsorção, que pode resultar em inflamação de estruturas intraoculares. Pacientes que se encontram neste estágio da catarata possuem perda de visão com probabilidade mínima de recuperação.


Do ponto de vista clínico, existem muitos fatores causadores de catarata. Estes podem ser Hereditários muito comuns em raças puras com destaque para o Poodle cuja prevalência é maior que 10%. Catarata metabólica ocorre devido a distúrbios metabólicos , que podem acontecer durante o desenvolvimento embrionário ou  por alterações endócrinas. Catarata congênita se inicia durante a vida fetal, estando presente ao nascimento e podendo ser estacionária ou progressiva. Não necessariamente a catarata congênita é hereditária, devendo ser levado em conta fatores como consanguinidade ou exposição a substâncias físicas ou químicas durante a gestação. Catarata adquirida é aquela cuja origem é traumática, metabólica, ou secundária a outras doenças oculares. Catarata nutricional é causada pelo uso inapropriado de substitutos de leite materno, que em filhotes desmamados precocemente, são comumente utilizados, ocorrendo privação de aminoácidos essenciais presentes em níveis reduzidos nestes alimentos. Cataratas físicas estão relacionadas à radiação, cuja exposição se dá frequentemente em exames radiográficos e radioterapia no tratamento oncológico. Numerosos componentes e drogas têm sido apontados como causadores de catarata em animais , quando utilizados em altas doses não terapêuticas sendo portanto esta classificada como Catarata tóxica. Como parte do processo normal de envelhecimento, cataratas são comumente vistas em cães idosos, recebendo classificação de Catarata senil se nenhuma outra causa for detectada. Esta apresenta progressão lenta e bastante comum, principalmente em indivíduos com idade maior do que 10 anos. Estudos revelam que mais de 60% de pacientes diabéticos desenvolvem Catarata diabética, sendo este um distúrbio bastante prevalente no Diabete melitos que pode manifestar desenvolvimento rápido da opacidade, chegando a maturar em curto espaço de tempo.


Frequentemente o animal acometido pela opacidade  do cristalino, é conduzido por seu proprietário até o veterinário devido a mudanças comportamentais em decorrência de diminuição da acuidade visual ou até mesmo por manifestar cegueira total. Observa-se um comprometimento da locomoção por dificuldade em desviar de obstáculos dentro da casa como mesas e cadeiras. Outra queixa comum é a mudança na aparência dos olhos que se apresentam com aspecto esbranquiçado. Em estágios iniciais a alteração é observada principalmente a noite quando a pupila se encontra dilatada. Um atendimento clínico com ênfase para a oftalmologia é de suma importância para que pacientes portadores de alterações sugestivas de catarata, sejam submetidos a avaliação detalhada de todas as estruturas oculares, objetivando assim, que a patologia seja precisamente diagnosticada, estadiada e eleita como tratável cirurgicamente ou não.



Fontes recomendadas:


http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/22922/000736704.pdf?sequence=1

Manual  de oftalmologia veterinária ( Kirk N. Gelatt)









                            
  


domingo, 1 de julho de 2012

Peritonite Infecciosa Felina

Peritonite infecciosa felina (PIF) é uma doença infecto-contagiosa, sistêmica, e progressivamente fatal que acomete gatos domésticos. Comum na espécie, PIF ocorre principalmente quando estes animais se aglomeram em gatis por exemplo. Trata-se de uma enfermidade de etiologia viral imunomediada que, com poucas exceções, leva o indivíduo acometido a óbito em um período de poucas semanas.

Causada por um coronavírus denominado Vírus da Peritonite infecciosa Felina (VPIF), PIF possui como principal forma de transmissão o contato com secreções orais, respiratórias , fezes e urina, ocorrendo infecção por ingestão ou inalação destas secreções sob condições de contato íntimo entre felinos, o que torna a superpopulação desta espécie em um mesmo ambiente, um dos fatores predisponentes. Episódios de estresse, como desmame, transporte e cirurgias , hereditariedade (alguns animais são geneticamente susceptíveis à doença) , más condições de nutrição, doenças infecciosas crônicas infecções por Retrovírus (FIV e FeLV) e tratamento com drogas imunossupressoras, também são determinantes para o acometimento por PIF.

Após a inalação ou ingestão, o vírus se replica nas células epiteliais da orofaringe ou do trato respiratório superior. Ocorre então uma produção de anticorpos antivirais com posterior captação por células de defesa, especificamente os macrófagos. Os anticorpos não captados interagem com os antígenos virais formando estruturas denominadas imunocomplexos no interior dos vasos sanguíneos, sendo este um importante mecanismo de defesa do organismo. Entretanto, estas estruturas se depositam na parede dos vasos gerando uma reação de hipersensibilidade vascular. Isto resulta em uma inflamação (vasculite) disseminada considerada grave, já que causa aumento da permeabilidade dos vasos com consequente exsudação de fluido que se acumula na cavidade abdominal e/ou pleural, sendo classificada como PIF efusiva ou úmida. Esta forma representa aproximadamente 75% dos casos atendidos e ocorre quando há forte resposta imune por anticorpos (resposta humoral) e pouca ou nenhuma resposta imune celular. Quando a resposta imune humoral se manifesta associada à resposta imune celular que desempenha um papel protetor, a inflamação vascular não é tão intensa , não havendo exsudação e portanto se apresentando na forma seca ou não efusiva, o que não minimiza o grau de lesão tecidual.


PIF úmida ou efusiva se caracteriza por acúmulo progressivo de fluido nas cavidades. O paciente se apresenta frequentemente com distensão abdominal no caso de acúmulo de líquido nesta cavidade. Quando o acúmulo ocorre na cavidade pleural o animal apresenta dificuldade respiratória. Em função disto ocorre prostração, diminuição do apetite, emagrecimento, febre, desidratação e óbito que normalmente ocorre de dois dias a dois meses após o início da doença. PIF seca possui sinais inespecíficos normalmente associados às lesões teciduais presentes no fígado, rins, pulmões , sistema nervoso central e olhos (gatos com esta forma da doença normalmente apresentam lesão ocular) . O tempo de sobrevivência dos gatos acometidos por PIF seca é mais prolongado, chegando a doze meses após o início da infecção.


Uma vez infectado, pouco pode ser feito para alterar o curso de PIF em um  paciente felino portador da doença, sendo demonstrado em diversos estudos uma taxa de mortalidade de 100%. Outro fator a ser destacado é a dificuldade na eliminação da infecção uma vez instalado o vírus no ambiente. Assim torna-se demasiadamente importante sua prevenção, que pode ser obtida através da higiene dos gatis (coronavírus é sensível a desinfetantes usuais) , manejo de filhotes de mães soropositivas para coronavírus felino, que devem ser desmamados precocemente para interromper a transmissão vertical (mãe para filho através da amamentação), quarentena de animais recém introduzidos além de remoção de portadores crônicos em gatis e evitar consanguinidade entre animais, já que pode haver maior susceptibilidade relacionada à hereditariedade. Nos casos de compra de gatos, individualmente, é recomendável uma seleção adequada do gatil, escolhendo criadores que se preocupem com a prevenção da doença. Quando a aquisição do animal é feita por adoção, uma avaliação clínica detalhada através de consulta veterinária antes da introdução em ambientes que normalmente já possuem outros gatos, previne a instalação de PIF.



Artigos recomendados : http://www.scielo.br/pdf/cr/v33n5/17138.pdf

http://www.arsveterinaria.org.br/index.php/ars/article/viewFile/38/30



Infecção ocular em felino com PIF 


 Dilatação abdominal em felino com PIF úmida 

Gatil com terra (difícil limpeza)


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Otite externa

Otite externa é uma doença de etiologia multifatorial,  constituída por inflamação no epitélio dos canais auditivos horizontal e vertical e nas estruturas circundantes, ou seja meato auditivo externo e pavilhão auricular. Trata-se de uma patologia extremamente comum em cães chegando a 20% das admissões em consultórios, clínicas e hospitais veterinários e menos frequente em gatos, embora também ocorra dentro da rotina clínica. 

Para uma melhor compreensão das causas desta patologia é importante destacar a anatomia do ouvido externo que consiste de um pavilhão auricular composto por duas cartilagens cobertas por pele, o meato auditivo e o canal auditivo externo. No caso dos cães, seu formato varia em tamanho e forma, entre as raças, podendo se apresentar em forma de V  ereto ou semi-ereto e com um aspecto longo e pendular. A cartilagem auricular é determinante quanto à sua aparência, criando um formato de concha , com sua base composta por cristas . Algumas raças possuem a região provida de pelos em maior ou menor quantidade, e há de se considerar, também, a existência de microrganismos habitando o ouvido externo, considerados normais, ou seja , colonizando o local sem causar doença. Estes compõem a denominada microbiota normal do ouvido e são representados por bactérias (Staphylococcus epidermidis, Staphylococcus intermedius e Micrococcus sp) e leveduras da espécie Malassezia pachydermatis . Tais características são determinantes na incidência da otite externa, já que leva a uma maior ou menor predisposição para o seu surgimento.


Os diversos fatores envolvidos no desenvolvimento da otite externa podem ser melhor descritos como predisponentes , primários e perpetuantes. 


Fatores predisponentes são os que tornam o ouvido mais susceptível à inflamação, mas que por si apenas não causam otite. Uma maior predisposição à otites se relaciona à característica anatômica de cada raça. Observa-se na rotina clínica uma frequência maior da patologia entre cães com a orelha longa e pendular, com excesso de pelo nos ouvidos ou com o conduto auditivo estreito. Fatores como umidade excessiva, causas iatrogênicas (limpeza ou tratamento inadequado do conduto, manutenção de algodão usado na proteção dos ouvidos durante banhos) e neoplasias do conduto auditivo, também são considerados predisponentes. 


Fatores primários são aqueles capazes de iniciar o processo inflamatório em ouvidos que , sob outros aspectos, são considerados normais. Os exemplos mais comumente observados são os processos alérgicos (atopia , alergia alimentar ou reação a medicações de uso tópico) ,  corpos estranhos (gravetos, grama, terra) , parasitas (Otodectes cynotis , Demodex canis, carrapatos) e doenças endócrinas (hipotiroidismo e hiperadrenocorticismo).


Fatores perpetuantes são aqueles considerados responsáveis por dar continuidade ao processo inflamatório, em que o fator primário não necessariamente esteja presente ou ativo, e sendo as infecções bacterianas ou fúngicas as responsáveis pela perpetuação da otite externa. O isolado bacteriano mais comum , associado à patologia é Staphylococcus intermedius representando aproximadamente 50% dos casos. Outros isolados são Pseudomonas aeruginosa , Proteus spp , Streptococcus spp , Escherichia coli e Corynebacterium spp. Quantidades maiores de bactérias podem degradar os componentes ceruminosos, gerando produtos potencialmente irritantes e aumentando a reação inflamatória. Malassezia pachydermatis, conforme mencionado anteriormente faz parte da microbiota normal de cães e gatos, sendo portanto considerado um microrganismo oportunista que se prolifera em ouvidos inflamados por outra causa qualquer, observado em cerca de 80% dos casos de otite externa em cães.


As manifestações clínicas mais comuns de otite externa são o prurido (coceira) auricular e a movimentação da cabeça para os lados (balança a cabeça). Com a progressão da doença, há o surgimento de exsudato (secreção) discreto a intenso, causando odor fétido, edema e dor. Além da própria patologia como causadora de incômodo ao indivíduo acometido, chegando a provocar até mesmo prostração e diminuição do apetite, a otite externa pode levar a complicações quando não precoce e adequadamente tratada. Feridas , hematomas e dermatites podem surgir devido ao prurido intenso ao qual são acometidos os pacientes portadores de inflamação do ouvido. Outra condição patológica, muitas vezes diretamente relacionada à otite externa é a otite média que pode evoluir para otite interna e tornar o prognóstico pior, devido às graves alterações observadas nestas doenças. Sendo assim é importante destacar a necessidade de detecção precoce da otite externa, bem como adoção de tratamento adequado uma vez diagnosticada através de identificação dos fatores predisponentes, primários e perpetuantes, baseado em informes clínicos , laboratoriais e de imagem.


Artigos recomendados: http://www.scielo.br/pdf/abmvz/v58n6/06.pdf

http://periodicos.ufersa.edu.br/revistas/index.php/acta/article/view/2020/4780







Pastor Alemão(orelha reta)
     
Cocker Spaniel(orelha pendular)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Zooterapia

Também conhecida como Terapia assistida por animais (TAA), a zooterapia é um método terapêutico e educacional em que o animal exerce importante papel no tratamento de pacientes humanos objetivando promover melhoria social, emocional , física e/ou cognitiva. Possui área de pesquisa bastante abrangente e inclui todas as interações entre o homem e o animal servindo como estímulo a diversos tipos de pessoas portadoras de alguma patologia ou não.

Tal prática já é adotada desde as civilizações antigas, existindo relatos do uso de animais para benefício humano à época. No século XVIII, através da utilização de equinos, a TAA já fora usada como tratamento médico. No ano de 1972, foi intuitivamente adotada por um psiquiatra norte-americano de nome William Tuke, que comprovou que o contato com animais trazia benefícios significativos à saúde, mas se tornou efetivamente conhecida na comunidade científica, somente nos anos 80.

Diferentes estudos demonstram que a TAA pode promover a saúde física através de mecanismos básicos que incluem a diminuição da solidão e da depressão, diminuindo a ansiedade e causando efeitos no sistema nervoso simpático capazes de aumentar até mesmo o estímulo para prática de exercícios. Pode ser aplicada em áreas relacionadas ao desenvolvimento psicomotor e sensorial, no tratamento de distúrbios físicos, mentais e emocionais, além de poder ser utilizada em programas destinados à melhoria da capacidade de socialização ou recuperação da auto-estima, podendo ser aplicada a indivíduos de qualquer faixa etária em presídios , hospitais , casas de saúde, escolas e clínicas de recuperação.

No âmbito educacional , a TAA é indicada para pessoas com necesssidades educativas ou não, aonde são utilizados animais como dispositivo didático em salas de aula, quando os alunos os manipulam, reconhecendo sua biologia através dos tato, visão e olfato e promovendo mais motivação ao aprendizado. Através dos animais o ser humano aprende, desenvolve a inteligência, a investigação e descobre elementos do progresso científico e técnico, o que implica em aprimoramento ético, moral e de cidadania. Cães, roedores como coelhos e porquinhos-da-índia e até algumas aves têm auxiliado o processo educacional de crianças e adolescentes, tornando as aulas mais atrativas e auxiliando o tratamento de problemas de linguagem, de percepção corporal e de controle da ansiedade , além de atuar como método ilustrativo integrado ao meio escolar de um modo geral.


Nas áreas de saúde, a TAA já é reconhecida pelo conselho federal de medicina como modalidade terapêutica formal em âmbito mundial, para pacientes com limitações físicas ou mentais. Várias espécies de animais podem ser utilizadas para este fim , merecendo destaque as espécies equina e canina. Quando a espécie equina auxilia o tratamento é denominada equinoterapia, sendo uma das mais antigas modalidades de TAA, difundida para o tratamento de pacientes portadores de distúrbios da função motora comum em casos de paralisia cerebral, esclerose múltipla ou traumatismos cerebrais. A similaridade entre o ritmo do movimento do cavalo e do ser humano promove, durante a cavalgada, o fortalecimento muscular, acelerando o processo de recuperação destes indivíduos. Cães, por sua vez, têm sido utilizados em visitas a hospitais, demonstrando que sua presença em ambiente hospitalar reduz o tempo de internação do paciente. Estudos revelam que por promover alívio da tensão e da ansiedade, a presença de animais nestes locais, diminui o tônus muscular e consequentemente a dor e o desconforto, além de estimular a diminuição dos níveis de pressão arterial. Constatou-se também que as visitas influenciam não só o bem-estar dos pacientes, mas também dos funcionários envolvidos, como as equipes médica e de enfermagem, propiciando aos mesmos momentos de descontração com reflexo positivo no humor destas pessoas.


Por serem considerados locais com alta taxa de depressão e estresse, instituições como asilos , orfanatos, presídios e clínicas de recuperação de dependentes químicos já utilizam TAA como auxílio na recuperação de seus pacientes, já que o contato com animais proporciona aumento da afetividade, do ânimo e da socialização destas pessoas. A recuperação destes indivíduos depende, entre outras coisas, de seu bem estar psicológico, sendo tal terapia comprovadamente importante na potencialização das interações sociais promovendo melhoria da auto-estima e da autoconfiança. Neste caso são muito usados cães , gatos , peixes , tartarugas , pássaros e até bovinos, quando é possível construir estrutura para sua criação.


O impacto da atuação da terapia com animais tem demonstrado excelentes resultados sempre que tal prática é implantada, mostrando-se um ótimo instrumento terapêutico com indícios de recuperação mais rápida de doenças e ressocialização de indivíduos excluídos do convívio normal com a sociedade. Embora ainda pouco difundida no Brasil e alvo de alguns preconceitos, nos últimos anos foram criados alguns programas formais e informais, cujo objetivo é baseado nos benefícios obtidos através da zooterapia. Todos os animais utilizados nesses programas passam obrigatoriamente pela avaliação de profissionais da área de medicina veterinária e psicologia comportamental, sendo testados quanto à sua saúde e seu comportamento, com monitoramento e reavaliações periódicas constantes. Importante salientar que, baseado nas fontes pesquisadas, os animais utilizados durante a terapia não são submetidos a estresse, uma vez que estão condicionados a realizar tal trabalho, sendo respeitado um tempo limite por visita no caso de cães (15 minutos no máximo) , além do acompanhamento feito pelos voluntários durante a terapia, normalmente realizado por pessoas engajadas em programas de proteção animal.


Links de alguns programas de TAA : http://www.psicologiaanimal.com.br/

http://www.inataa.org.br/

http://www.maedecachorro.com.br/2011/10/projeto-pelo-proximo-ppp-terapia-assistida-por-animais-no-rio-de-janeiro.html

http://www.clubedecaes.com.br/anjos_de_patas.html



http://www.revista.inf.br/veterinaria10/revisao/edic-vi-n10-RL86.pdf

http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/842/84201407.pdf







                        


                                        
                                            

terça-feira, 15 de maio de 2012

Traqueobronquite infecciosa canina

Traqueobronquite infecciosa canina é uma doença caracterizada por infecção respiratória aguda e altamente contagiosa, acompanhada de tosse. Por seu alto índice de contágio possui prevalência elevada em ambientes com vários cães juntos , como canis , hotéis , lojas e clínicas veterinárias , sendo popularmente conhecida por Tosse dos Canis. 

Em épocas do ano cuja temperatura e umidade relativa do ar sofrem declínio tornando o clima frio e seco ocorre uma grande demanda de atendimento veterinário em decorrência das doenças respiratórias de um modo geral, assim como em medicina humana, sendo a Traqueobronquite infecciosa canina, considerada uma doença sazonal frequente nos meses frios, a mais comum. Isto se deve ao ar quente que se desloca para as camadas mais altas da atmosfera provocando um resfriamento da superfície pelo ar frio aonde se concentram uma maior quantidade de partículas virais e bacterianas , além dos poluentes.

É determinado que diversos microrganismos estão envolvidos na etiologia da tosse dos canis. Entretanto os agentes mais comuns, geralmente associados , são o adenovírus canino tipo 2 (CAV2) , o vírus da parainfluenza canina (CPV) e a bactéria Bordetella bronchiseptica. Estes são rapidamente disseminados de um cão para outro por via aerógena (através do ar) , contato direto ou fômites (objeto inanimado capaz de transmitir agentes infeccioso de um indivíduo a outro) , colonizando e lesionando o epitélio das vias aéreas e gerando processo inflamatório local. O período de incubação da doença poder variar entre 3 a 10 dias e seu curso pode se estender em até 14 dias.

Indivíduos acometidos são apresentados com surgimento agudo de uma tosse que pode ser produtiva ou improdutiva, que varia de intensidade e é  freqüentemente acompanhada de engasgo , ânsia de vômito e em alguns casos secreção nasal. O paciente em geral apresenta bom estado geral, mantendo apetite, boa disposição e sem manifestação de febre, porém complicações da infecção normalmente associadas à broncopneumonia podem tornar a doença de prognóstico pior levando-o , inclusive ao óbito, se não precoce e adequadamente tratado. O diagnóstico da Traqueobronquite canina é baseado na história clínica , nos sinais clínicos e na resposta do paciente ao tratamento, entretanto nem sempre é obtido de forma definitiva, o que haverá maior importância nos casos de complicação da doença.


A prevenção da "Tosse dos canis" é conseguida , basicamente evitando a exposição do animal aos agentes. Porém, devido à necessidade , praticamente inevitável da utilização de serviços veterinários em clínicas , salões de banho e tosa e hotéis, este meio de prevenção é inviável. Sendo assim a profilaxia através da realização e atualização de vacinas, cujo mercado disponibiliza produtos de excelente relação entre custo e benefício, se torna o melhor método de prevenção. Isto se deve ao avanço tecnológico na produção das mesmas, aliado ao custo bastante acessível ao consumidor de um modo geral, tornando tal patologia de fácil controle.

Artigo recomendado: 
http://200.136.76.129/comunicacao/publicacoes/ics/edicoes/2004/04_out_dez/V22_N4_2004_p279-286.pdf


Vários cães,de diversas procedências, juntos em canil


terça-feira, 1 de maio de 2012

Pancreatite

Pancreatite é definida como inflamação do pâncreas causada pela ativação das enzimas digestivas de origem pancreática agindo no próprio órgão. A ação destas enzimas eleva sua permeabilidade vascular, causando lesão direta do pâncreas , além de desencadear outras alterações indiretas que irão acentuar tal processo.

O pâncreas é um órgão do sistema digestivo e endócrino que possui um formato em V , localizado transversalmente sobre a parede posterior do abdômen, intimamente associado ao estômago, fígado e duodeno. Sua atuação na função digestiva é realizada por sua porção exócrina, responsável pela produção e secreção de enzimas utilizadas no processo de digestão dentro do intestino. O tecido exócrino juntamente aos vasos e nervos associados, representa cerca de 98% da massa pancreática total. Como órgão do sistema endócrino o pâncreas funciona como glândula secretora dos hormônios Insulina e Glucagon, através de sua porção endócrina, estando diretamente relacionado ao controle dos níveis sanguíneos de glicose, e representando 2% da massa total do órgão.


As patologias do pâncreas são divididas de acordo com a porção afetada. Sendo assim quando há comprometimento da porção exócrina, a doença é denominada afecção pancreática exócrina. Entre elas estão a pancreatite , a insuficiência pancreática exócrina e a neoplasia pancreática exócrina. Quando a porção afetada é a endócrina, recebe a denominação de afecção pancreática endócrina, sendo o diabetes melito a mais comum , além das neoplasias do pâncreas endócrino.

Acredita-se que a pancreatite possua várias causas primárias, sendo todas capazes de ativar as enzimas digestivas pancreáticas a agir contra o próprio pâncreas. Entretanto em muitos casos não é possível estabelecer diagnóstico sendo diversas vezes considerada de origem idiopática (sem causa definida). Alguns fatores são considerados como etiológicos ou predisponentes, como obesidade , consumo de dietas ricas em gordura,   hiperadrenocorticismo , hipotiroidismo , alguns medicamentos, trauma , infecção ascendente por bactérias intestinais, por manipulação cirúrgica e diabetes (aproximadamente 60% de seres humanos diabéticos possuem a função pancreática diminuída, além do que , conforme revelam estudos recentes, a diabetes pode ser secundária à insuficiência pancreática exócrina). É  provável o envolvimento de mais de um fator e  ocorre tipicamente em animais de meia idade a idosos, não havendo predileção sexual com a maioria dos indivíduos acometidos sendo obesos.


Com relação à apresentação clínica da pancreatite, é adotada a classificação de doença aguda ou crônica. Quando de curso agudo a doença tem início rápido podendo recidivar. Esta normalmente é autolimitante e de bom prognóstico, denominada pancreatite leve, entretanto pode se manifestar de forma intensa, progressiva e com danos mais sérios ao organismo do indivíduo acometido, sendo , assim , a chamada pancreatite grave ou intensa, de prognóstico desfavorável. Da mesma forma , quanto à intensidade da doença (leve ou intensa), a pancreatite pode ter curso crônico, e ser contínua e latente ou recorrente e episódica, podendo causar diversas complicações no paciente portador da forma intensa, em função de uma insuficiência pancreática. Importante salientar que a pancreatite aguda não é causa de pancreatite crônica .


Os sintomas mais comumente observados na pancreatite aguda são  dor abdominal, prostração , perda de apetite , vômito e, em alguns casos, diarréia, além dos sintomas resultantes de complicação sistêmica em decorrência do processo inflamatório do pâncreas. Quando a pancreatite se agrava,  a evolução negativa do quadro geral leva ao choque e colapso. No caso da pancreatite crônica os sintomas são variáveis e inespecíficos, variando em gravidade de acordo com sua intensidade.


Portadores da apresentação intensa da pancreatite são considerados, em sua grande maioria pacientes críticos, devido à sua alta mortalidade. O pâncreas afetado libera rapidamente substâncias como a bradicinina , com ação vasodilatadora, que reduz o fluxo sanguíneo pancreático acelerando o processo inflamatório do órgão e gerando queda súbita e grave da pressão arterial. Os produtos liberados durante o processo inflamatório do pâncreas, sofrerão absorção sistêmica, culminando com falência múltipla de órgãos , colapso e choque nos quadros mais avançados da doença , sendo a sepse (septicemia) e a insuficiência respiratória as causas mais comuns de óbito nestes pacientes.


O diagnóstico da pancreatite é baseado na história e sinais clínicos , através de imagem de acordo com a disponibilidade do aparelho, sendo mais comum o diagnóstico por alterações radiográficas e ultrassonográficas, além das diversas alterações laboratoriais detectáveis. Quando diagnosticada, deve ser tratada o mais breve possível para que não ocorra seu agravamento, podendo ser eleito o tratamento clínico e até cirúrgico quando não há rapidez e precisão no diagnóstico. O objetivo principal da terapia do paciente portador de pancreatite consiste em eliminar a causa primária, reduzir a secreção pancreática, aliviar a dor, corrigir todos as complicações sistêmicas existentes e submeter monitoramento por meio de terapia intensiva.


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Animais internados em
unidade de tratamento intensivo (UTI)












domingo, 15 de abril de 2012

Tosse

Tosse é o esforço expiratório que produz expulsão súbita e ruidosa do ar dos pulmões , comumente em uma tentativa de libera-los de algum conteúdo estranho. O reflexo da tosse é o resultado da irritação mecânica ou química da faringe, laringe, árvore traqueobrônquica, e algumas das vias respiratórias menos calibrosas.

Tal manifestação, enquanto síndrome, é particularmente irritante para o paciente e para seu proprietário, e pode ser tão perturbadora a ponto de exaurir o indivíduo acometido. Entretanto a maior preocupação com relação à sua existência ou persistência trata-se de sua causa , já que  pode representar não só patologias de bom prognóstico, como também doenças graves como tumores ou cardiopatias, além de disseminar microrganismos ou trazer prejuízo ao próprio portador da tosse.

As causas da tosse em pequenos animais podem ser divididas em tosse de origem inflamatória , neoplásica , cardiovascular , alérgica, traumática , por causas físicas e parasitária, sendo esta divisão importante para a determinação da conduta a ser adotada pelo médico veterinário, que deve iniciar seu inquérito investigativo , se informando do horário de maior ocorrência e de seu aspecto.

Quando de origem inflamatória a tosse normalmente é observada durante o dia podendo haver ou não a presença de secreção, o que a classifica como produtiva ou não produtiva. Tal processo pode ocorrer em decorrência de processos inflamatórios existente em todas as estruturas do trato respiratório, podendo ser de curso agudo, como nos quadros infecciosos causados por bactéria, vírus ou fungos ou de curso crônico como na Bronquite crônica ou nos casos de estenose de traquéia.

Tosse de origem neoplásica, como o próprio nome diz, é provocada pela presença de algum processo tumoral , seja ele de comportamento benígno ou malígno, localizado em alguma estrutura do trato respiratório. O tumor pode ser de origem primária ou metastática, sendo esta última comumente observada nos pulmões de pacientes portadores de tumor maligno mamário ou ósseo. Além dos pulmões, os processos neoplásicos do trato respiratório, são  comuns na traquéia, laringe , mediastino e linfonodos em caso de Linfoma. Normalmente a tosse de animais portadores de tal patologia é classificada como não produtiva e  frequentemente observada durante o dia.

Doenças cardíacas, também denominadas cardiomiopatias, têm como um de seus principais sinais clínicos, a tosse, que inicialmente é observada em períodos noturnos. Inúmeras vezes, o paciente portador de tal distúrbio tem seu diagnóstico em função do incômodo causado pela tosse, já que é a partir da persistência deste sintoma que o animal é levado à consulta veterinária. Animais acometidos por insuficiência cardíaca congestiva , podem apresentar aumento de tamanho do coração que provoca compressão de estruturas respiratórias adjacentes levando a tosse. Estes possuem retorno venoso comprometido, levando ao aumento do volume sanguíneo em vasos pulmonares e elevando sua pressão. Tal processo leva ao extravasamento de líquido dos vasos, causando seu acúmulo nos pulmões acarretando edema pulmonar, de prognóstico bastante reservado, mas que em processos iniciais,  é sinalizado com a presença de tosse de aspecto produtivo, melhorando o prognóstico.

Causas alérgicas, também podem ser representadas como fatores causadores de tosse, e devido á liberação de substâncias eliminadas nestes processos, como mecanismo fisiológico de defesa do organismo, ocorre irritação das estruturas em contato com determinado alérgeno. Ocorre normalmente durante o dia e possui característica produtiva. 

Traumas localizados no pescoço, principalmente por uso inadequado de coleiras enforcadoras, ou até em situações mais graves como a presença de corpos estranhos, bastante comuns nas ingestões de objetos ou nas perfurações esofágicas por ingestão de osso de frango, caracterizam a tosse como de origem traumática, sendo a mesma de característica produtiva.

Dentre os fatores físicos causadores de tosse pode-se destacar como bastante comum, a exposição a gases nocivos e à fumaça de cigarro. Há maior probabilidade de animais residentes em ambientes urbanos sofrerem de moléstia respiratória crônica, em decorrência da maior concentração de poluentes ambientais. No caso de contato com fumaça, principalmente  de cigarro e especialmente indivíduos considerados fumantes passivos, cujo proprietário é tabagista, ocorre irritação da mucosa pulmonar estimulando o sintoma da tosse. Neste caso, assim como no contato com poluentes , a ocorrência de doença crônica respiratória é bastante comum. A tosse neste caso geralmente é produtiva.


Por último, dentro da classificação proposta, está a tosse de origem parasitária. Neste caso o sintoma ocorre pela irritação causada pela presença do parasito nos pulmões, merecendo mais destaque pela maior prevalência a Larva migrans visceral (http://nucleoveterinariobh.blogspot.com.br/2011/12/verminoses-intestinais.html)  e  Dirofilariose (http://nucleoveterinariobh.blogspot.com.br/2011/12/verme-do-coracao.html). Quando de origem parasitária a tosse ocorre normalmente durante o dia e se apresenta produtiva.

Artigos recomendadoshttp://200.136.76.129/comunicacao/publicacoes/ics/edicoes/2004/04_out_dez/V22_N4_2004_p279-286.pdf
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/semagrarias/article/view/2836/2411
http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs-2.2.4/index.php/veterinary/article/view/13994/14247
http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/331/33134213.pdf







Deslocamento dorsal da traquéia
por aumento
 no tamanho do coração

domingo, 1 de abril de 2012

Fisioterapia na Medicina Veterinária

Fisioterapia é uma área relativamente nova na Medicina Veterinária, e pode ser considerada essencial na  recuperação de cirurgias ortopédicas principalmente. Em seu conceito, define-se fisioterapia como uma ciência aplicada , cujo objetivo é o estudo do movimento em suas formas de expressão e potencialidades, quer nas suas alterações patológicas, quer nas suas repercussões psiquicas e orgânicas, com o objetivo de preservar, manter e restaurar a integridade de um órgão, sistema ou função, promovendo reabilitação , controle da dor e assim melhoria da qualidade de vida.

No caso de sua aplicação na reabilitação de animais, é denominada Fisioterapia Veterinária , e trata-se de uma prática exclusiva do profissional graduado em medicina veterinária, devidamente preparado para tal,  já que somente este é habilitado a avaliar o animal quanto a sua anatomia, biomecânica , fisiologia, e patologia clínica e cirúrgica. Possui diversas indicações, entretanto as mais comumente tratadas pela fisioterapia estão relacionadas aos distúrbios do sistema locomotor. Pacientes portadores de patologias do sistema nervoso, como  AVE (acidente vascular encefálico) ou distúrbios  da medula espinhal também podem ser alvo dos processos de reabilitação assistida pelo fisioterapeuta veterinário.


reabilitação direcionada às condições ortopédicas é uma das mais importantes áreas da fisioterapia em animais domésticos, especialmente os cães. Dentre as diversas indicações, estão a recuperação de fraturas, distúrbios articulares, rupturas de ligamentos e afecções tendíneas. A formulação do protocolo de tratamento depende da identificação dos distúrbios apresentados, destacando que a priorização dos problemas, a opção pelos métodos de tratamento apropriado e sua frequência irão determinar o sucesso da recuperação.


São normalmente utilizadas algumas modalidades fisioterápicas no processo de reabilitação que sofrerá variações de frequência e tempo de acordo com o protocolo adotado pelo fisioterapeuta veterinário. Algumas destas modalidades são mais comumente realizadas na rotina clínica veterinária. São elas a cinesioterapia ,hidroterapia, crioterapia , termoterapia , eletroterapia , laserterapia e ultra-som.


Cinesioterapia é a prática da reabilitação através do movimento. Possui como objetivo o aumento da força muscular , melhoria da deambulação (marcha) equilíbrio e coordenação , aumento da amplitude de movimento (ADM) , prevenção de contraturas e aderências. As técnicas realizadas nesta modalidade são os exercícios por movimento passivo e ativo.


Hidroterapia é a modalidade da fisioterapia que se utiliza de diferentes combinações de exercícios em água, tornando sua utilização principalmente em piscinas, um dos recursos mais utilizados por fisioterapeutas, inclusive veterinários. Tem inúmeras vantagens como a ausência de impacto , a facilidade de sua realização em pacientes caninos devido ao bem-estar que a prática proporciona , melhoria do condicionamento físico  e fortalecimento de vários grupos musculares simultaneamente. 


O termo crioterapia é utilizado para descrever a aplicação de modalidades de frio ,que têm uma variação de temperatura de 0°C a 18,3°C, objetivando auxílio no tratamento das condições ortopédicas de curso agudo principalmente. Atua promovendo queda da temperatura local, diminuindo assim o metabolismo e propiciando diminuição da dor , inflamação e espasmo muscular. Pode ser feita utilizando compressas de gelo , imersão em água gelada ou spray. 


Termoterapia é a terapia que utiliza o calor como  tratamento de patologias de curso subagudo ou crônico, e dentre as modalidades da fisioterapia é a mais antiga que se tem conhecimento na prática da reabilitação física. Seus efeitos incluem aumento da taxa metabólica celular e aumento do fluxo sanguíneo por consequência da vasodilatação, promovendo relaxamento muscular, analgesia , redução da rigidez articular e aumento da extensibilidade de tendões. A terapia pelo calor é obtida por compressas quentes , bolsa térmica, luz incandescente, parafina ou luz infravermelha.


Eletroterapia consiste no uso de correntes elétricas dentro da terapêutica. Os aparelhos de eletroterapia utilizam uma intensidade de corrente muito baixa e seus eletrodos são aplicados diretamente sobre a pele, usando o organismo como condutor. Estimulação elétrica nervosa transcutânea (T.E.N.S.) é uma das   principais correntes elétricas terapêuticas, utilizada em processos álgicos agudos e crônicos , por atuarem nos centros moduladores da dor.  Outro método de eletroterapia  é pelo Estímulo Elétrico Funcional (FES) que promove contração muscular através de corrente elétrica com o objetivo de melhorar o tônus muscular e estimular o fluxo sanguíneo nos músculos. Ambas as técnicas, com grande aplicabilidade na reabilitação física de animais , são realizadas por meio de aparelhagem específica.


A palavra Laser tem origem na abreviação de Light Amplification Stimulated Emission  (Amplificação da luz por emissão estimulada) e consiste de ondas eletromagnéticas emitidas sobre algum tecido com objetivos variados. Na medicina de um modo geral , mais especificamente na fisioterapia veterinária, possui alguns efeitos biológicos aplicáveis ao processo de reabilitação física por auxiliar nos processos de cicatrização , aumentar a circulação sanguínea e linfática , promover analgesia e redução de edema e inflamação dos tecidos acometidos.


Ultra-som é uma modalidade terapêutica de penetração profunda que ao ser transmitida aos tecidos biológicos é capaz de produzir alterações celulares por efeitos mecânicos. A transmissão ocorre pelas vibrações das moléculas do meio através do qual a onda se propaga, e a medida que atravessa o tecido, tem parte da energia absorvida, promovendo aquecimento local. Este efeito atua no alívio da dor , na diminuição da rigidez muscular, na redução dos processos inflamatórios , na regeneração de tecidos e no aumento do fluxo sanguíneo, sendo uma técnica amplamente utilizada na reabilitação física do paciente.



http://www.scielo.br/pdf/cr/v38n4/a51v38n4.pdf


Hidroterapia

    
      Ultra - Som


     
                                    T.E.N.S.


Laserterapia

          
                                        
                           Cinesioterapia                                                                                       Eletroterapia