sexta-feira, 15 de junho de 2012

Otite externa

Otite externa é uma doença de etiologia multifatorial,  constituída por inflamação no epitélio dos canais auditivos horizontal e vertical e nas estruturas circundantes, ou seja meato auditivo externo e pavilhão auricular. Trata-se de uma patologia extremamente comum em cães chegando a 20% das admissões em consultórios, clínicas e hospitais veterinários e menos frequente em gatos, embora também ocorra dentro da rotina clínica. 

Para uma melhor compreensão das causas desta patologia é importante destacar a anatomia do ouvido externo que consiste de um pavilhão auricular composto por duas cartilagens cobertas por pele, o meato auditivo e o canal auditivo externo. No caso dos cães, seu formato varia em tamanho e forma, entre as raças, podendo se apresentar em forma de V  ereto ou semi-ereto e com um aspecto longo e pendular. A cartilagem auricular é determinante quanto à sua aparência, criando um formato de concha , com sua base composta por cristas . Algumas raças possuem a região provida de pelos em maior ou menor quantidade, e há de se considerar, também, a existência de microrganismos habitando o ouvido externo, considerados normais, ou seja , colonizando o local sem causar doença. Estes compõem a denominada microbiota normal do ouvido e são representados por bactérias (Staphylococcus epidermidis, Staphylococcus intermedius e Micrococcus sp) e leveduras da espécie Malassezia pachydermatis . Tais características são determinantes na incidência da otite externa, já que leva a uma maior ou menor predisposição para o seu surgimento.


Os diversos fatores envolvidos no desenvolvimento da otite externa podem ser melhor descritos como predisponentes , primários e perpetuantes. 


Fatores predisponentes são os que tornam o ouvido mais susceptível à inflamação, mas que por si apenas não causam otite. Uma maior predisposição à otites se relaciona à característica anatômica de cada raça. Observa-se na rotina clínica uma frequência maior da patologia entre cães com a orelha longa e pendular, com excesso de pelo nos ouvidos ou com o conduto auditivo estreito. Fatores como umidade excessiva, causas iatrogênicas (limpeza ou tratamento inadequado do conduto, manutenção de algodão usado na proteção dos ouvidos durante banhos) e neoplasias do conduto auditivo, também são considerados predisponentes. 


Fatores primários são aqueles capazes de iniciar o processo inflamatório em ouvidos que , sob outros aspectos, são considerados normais. Os exemplos mais comumente observados são os processos alérgicos (atopia , alergia alimentar ou reação a medicações de uso tópico) ,  corpos estranhos (gravetos, grama, terra) , parasitas (Otodectes cynotis , Demodex canis, carrapatos) e doenças endócrinas (hipotiroidismo e hiperadrenocorticismo).


Fatores perpetuantes são aqueles considerados responsáveis por dar continuidade ao processo inflamatório, em que o fator primário não necessariamente esteja presente ou ativo, e sendo as infecções bacterianas ou fúngicas as responsáveis pela perpetuação da otite externa. O isolado bacteriano mais comum , associado à patologia é Staphylococcus intermedius representando aproximadamente 50% dos casos. Outros isolados são Pseudomonas aeruginosa , Proteus spp , Streptococcus spp , Escherichia coli e Corynebacterium spp. Quantidades maiores de bactérias podem degradar os componentes ceruminosos, gerando produtos potencialmente irritantes e aumentando a reação inflamatória. Malassezia pachydermatis, conforme mencionado anteriormente faz parte da microbiota normal de cães e gatos, sendo portanto considerado um microrganismo oportunista que se prolifera em ouvidos inflamados por outra causa qualquer, observado em cerca de 80% dos casos de otite externa em cães.


As manifestações clínicas mais comuns de otite externa são o prurido (coceira) auricular e a movimentação da cabeça para os lados (balança a cabeça). Com a progressão da doença, há o surgimento de exsudato (secreção) discreto a intenso, causando odor fétido, edema e dor. Além da própria patologia como causadora de incômodo ao indivíduo acometido, chegando a provocar até mesmo prostração e diminuição do apetite, a otite externa pode levar a complicações quando não precoce e adequadamente tratada. Feridas , hematomas e dermatites podem surgir devido ao prurido intenso ao qual são acometidos os pacientes portadores de inflamação do ouvido. Outra condição patológica, muitas vezes diretamente relacionada à otite externa é a otite média que pode evoluir para otite interna e tornar o prognóstico pior, devido às graves alterações observadas nestas doenças. Sendo assim é importante destacar a necessidade de detecção precoce da otite externa, bem como adoção de tratamento adequado uma vez diagnosticada através de identificação dos fatores predisponentes, primários e perpetuantes, baseado em informes clínicos , laboratoriais e de imagem.


Artigos recomendados: http://www.scielo.br/pdf/abmvz/v58n6/06.pdf

http://periodicos.ufersa.edu.br/revistas/index.php/acta/article/view/2020/4780







Pastor Alemão(orelha reta)
     
Cocker Spaniel(orelha pendular)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Zooterapia

Também conhecida como Terapia assistida por animais (TAA), a zooterapia é um método terapêutico e educacional em que o animal exerce importante papel no tratamento de pacientes humanos objetivando promover melhoria social, emocional , física e/ou cognitiva. Possui área de pesquisa bastante abrangente e inclui todas as interações entre o homem e o animal servindo como estímulo a diversos tipos de pessoas portadoras de alguma patologia ou não.

Tal prática já é adotada desde as civilizações antigas, existindo relatos do uso de animais para benefício humano à época. No século XVIII, através da utilização de equinos, a TAA já fora usada como tratamento médico. No ano de 1972, foi intuitivamente adotada por um psiquiatra norte-americano de nome William Tuke, que comprovou que o contato com animais trazia benefícios significativos à saúde, mas se tornou efetivamente conhecida na comunidade científica, somente nos anos 80.

Diferentes estudos demonstram que a TAA pode promover a saúde física através de mecanismos básicos que incluem a diminuição da solidão e da depressão, diminuindo a ansiedade e causando efeitos no sistema nervoso simpático capazes de aumentar até mesmo o estímulo para prática de exercícios. Pode ser aplicada em áreas relacionadas ao desenvolvimento psicomotor e sensorial, no tratamento de distúrbios físicos, mentais e emocionais, além de poder ser utilizada em programas destinados à melhoria da capacidade de socialização ou recuperação da auto-estima, podendo ser aplicada a indivíduos de qualquer faixa etária em presídios , hospitais , casas de saúde, escolas e clínicas de recuperação.

No âmbito educacional , a TAA é indicada para pessoas com necesssidades educativas ou não, aonde são utilizados animais como dispositivo didático em salas de aula, quando os alunos os manipulam, reconhecendo sua biologia através dos tato, visão e olfato e promovendo mais motivação ao aprendizado. Através dos animais o ser humano aprende, desenvolve a inteligência, a investigação e descobre elementos do progresso científico e técnico, o que implica em aprimoramento ético, moral e de cidadania. Cães, roedores como coelhos e porquinhos-da-índia e até algumas aves têm auxiliado o processo educacional de crianças e adolescentes, tornando as aulas mais atrativas e auxiliando o tratamento de problemas de linguagem, de percepção corporal e de controle da ansiedade , além de atuar como método ilustrativo integrado ao meio escolar de um modo geral.


Nas áreas de saúde, a TAA já é reconhecida pelo conselho federal de medicina como modalidade terapêutica formal em âmbito mundial, para pacientes com limitações físicas ou mentais. Várias espécies de animais podem ser utilizadas para este fim , merecendo destaque as espécies equina e canina. Quando a espécie equina auxilia o tratamento é denominada equinoterapia, sendo uma das mais antigas modalidades de TAA, difundida para o tratamento de pacientes portadores de distúrbios da função motora comum em casos de paralisia cerebral, esclerose múltipla ou traumatismos cerebrais. A similaridade entre o ritmo do movimento do cavalo e do ser humano promove, durante a cavalgada, o fortalecimento muscular, acelerando o processo de recuperação destes indivíduos. Cães, por sua vez, têm sido utilizados em visitas a hospitais, demonstrando que sua presença em ambiente hospitalar reduz o tempo de internação do paciente. Estudos revelam que por promover alívio da tensão e da ansiedade, a presença de animais nestes locais, diminui o tônus muscular e consequentemente a dor e o desconforto, além de estimular a diminuição dos níveis de pressão arterial. Constatou-se também que as visitas influenciam não só o bem-estar dos pacientes, mas também dos funcionários envolvidos, como as equipes médica e de enfermagem, propiciando aos mesmos momentos de descontração com reflexo positivo no humor destas pessoas.


Por serem considerados locais com alta taxa de depressão e estresse, instituições como asilos , orfanatos, presídios e clínicas de recuperação de dependentes químicos já utilizam TAA como auxílio na recuperação de seus pacientes, já que o contato com animais proporciona aumento da afetividade, do ânimo e da socialização destas pessoas. A recuperação destes indivíduos depende, entre outras coisas, de seu bem estar psicológico, sendo tal terapia comprovadamente importante na potencialização das interações sociais promovendo melhoria da auto-estima e da autoconfiança. Neste caso são muito usados cães , gatos , peixes , tartarugas , pássaros e até bovinos, quando é possível construir estrutura para sua criação.


O impacto da atuação da terapia com animais tem demonstrado excelentes resultados sempre que tal prática é implantada, mostrando-se um ótimo instrumento terapêutico com indícios de recuperação mais rápida de doenças e ressocialização de indivíduos excluídos do convívio normal com a sociedade. Embora ainda pouco difundida no Brasil e alvo de alguns preconceitos, nos últimos anos foram criados alguns programas formais e informais, cujo objetivo é baseado nos benefícios obtidos através da zooterapia. Todos os animais utilizados nesses programas passam obrigatoriamente pela avaliação de profissionais da área de medicina veterinária e psicologia comportamental, sendo testados quanto à sua saúde e seu comportamento, com monitoramento e reavaliações periódicas constantes. Importante salientar que, baseado nas fontes pesquisadas, os animais utilizados durante a terapia não são submetidos a estresse, uma vez que estão condicionados a realizar tal trabalho, sendo respeitado um tempo limite por visita no caso de cães (15 minutos no máximo) , além do acompanhamento feito pelos voluntários durante a terapia, normalmente realizado por pessoas engajadas em programas de proteção animal.


Links de alguns programas de TAA : http://www.psicologiaanimal.com.br/

http://www.inataa.org.br/

http://www.maedecachorro.com.br/2011/10/projeto-pelo-proximo-ppp-terapia-assistida-por-animais-no-rio-de-janeiro.html

http://www.clubedecaes.com.br/anjos_de_patas.html



http://www.revista.inf.br/veterinaria10/revisao/edic-vi-n10-RL86.pdf

http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/842/84201407.pdf







                        


                                        
                                            

terça-feira, 15 de maio de 2012

Traqueobronquite infecciosa canina

Traqueobronquite infecciosa canina é uma doença caracterizada por infecção respiratória aguda e altamente contagiosa, acompanhada de tosse. Por seu alto índice de contágio possui prevalência elevada em ambientes com vários cães juntos , como canis , hotéis , lojas e clínicas veterinárias , sendo popularmente conhecida por Tosse dos Canis. 

Em épocas do ano cuja temperatura e umidade relativa do ar sofrem declínio tornando o clima frio e seco ocorre uma grande demanda de atendimento veterinário em decorrência das doenças respiratórias de um modo geral, assim como em medicina humana, sendo a Traqueobronquite infecciosa canina, considerada uma doença sazonal frequente nos meses frios, a mais comum. Isto se deve ao ar quente que se desloca para as camadas mais altas da atmosfera provocando um resfriamento da superfície pelo ar frio aonde se concentram uma maior quantidade de partículas virais e bacterianas , além dos poluentes.

É determinado que diversos microrganismos estão envolvidos na etiologia da tosse dos canis. Entretanto os agentes mais comuns, geralmente associados , são o adenovírus canino tipo 2 (CAV2) , o vírus da parainfluenza canina (CPV) e a bactéria Bordetella bronchiseptica. Estes são rapidamente disseminados de um cão para outro por via aerógena (através do ar) , contato direto ou fômites (objeto inanimado capaz de transmitir agentes infeccioso de um indivíduo a outro) , colonizando e lesionando o epitélio das vias aéreas e gerando processo inflamatório local. O período de incubação da doença poder variar entre 3 a 10 dias e seu curso pode se estender em até 14 dias.

Indivíduos acometidos são apresentados com surgimento agudo de uma tosse que pode ser produtiva ou improdutiva, que varia de intensidade e é  freqüentemente acompanhada de engasgo , ânsia de vômito e em alguns casos secreção nasal. O paciente em geral apresenta bom estado geral, mantendo apetite, boa disposição e sem manifestação de febre, porém complicações da infecção normalmente associadas à broncopneumonia podem tornar a doença de prognóstico pior levando-o , inclusive ao óbito, se não precoce e adequadamente tratado. O diagnóstico da Traqueobronquite canina é baseado na história clínica , nos sinais clínicos e na resposta do paciente ao tratamento, entretanto nem sempre é obtido de forma definitiva, o que haverá maior importância nos casos de complicação da doença.


A prevenção da "Tosse dos canis" é conseguida , basicamente evitando a exposição do animal aos agentes. Porém, devido à necessidade , praticamente inevitável da utilização de serviços veterinários em clínicas , salões de banho e tosa e hotéis, este meio de prevenção é inviável. Sendo assim a profilaxia através da realização e atualização de vacinas, cujo mercado disponibiliza produtos de excelente relação entre custo e benefício, se torna o melhor método de prevenção. Isto se deve ao avanço tecnológico na produção das mesmas, aliado ao custo bastante acessível ao consumidor de um modo geral, tornando tal patologia de fácil controle.

Artigo recomendado: 
http://200.136.76.129/comunicacao/publicacoes/ics/edicoes/2004/04_out_dez/V22_N4_2004_p279-286.pdf


Vários cães,de diversas procedências, juntos em canil


terça-feira, 1 de maio de 2012

Pancreatite

Pancreatite é definida como inflamação do pâncreas causada pela ativação das enzimas digestivas de origem pancreática agindo no próprio órgão. A ação destas enzimas eleva sua permeabilidade vascular, causando lesão direta do pâncreas , além de desencadear outras alterações indiretas que irão acentuar tal processo.

O pâncreas é um órgão do sistema digestivo e endócrino que possui um formato em V , localizado transversalmente sobre a parede posterior do abdômen, intimamente associado ao estômago, fígado e duodeno. Sua atuação na função digestiva é realizada por sua porção exócrina, responsável pela produção e secreção de enzimas utilizadas no processo de digestão dentro do intestino. O tecido exócrino juntamente aos vasos e nervos associados, representa cerca de 98% da massa pancreática total. Como órgão do sistema endócrino o pâncreas funciona como glândula secretora dos hormônios Insulina e Glucagon, através de sua porção endócrina, estando diretamente relacionado ao controle dos níveis sanguíneos de glicose, e representando 2% da massa total do órgão.


As patologias do pâncreas são divididas de acordo com a porção afetada. Sendo assim quando há comprometimento da porção exócrina, a doença é denominada afecção pancreática exócrina. Entre elas estão a pancreatite , a insuficiência pancreática exócrina e a neoplasia pancreática exócrina. Quando a porção afetada é a endócrina, recebe a denominação de afecção pancreática endócrina, sendo o diabetes melito a mais comum , além das neoplasias do pâncreas endócrino.

Acredita-se que a pancreatite possua várias causas primárias, sendo todas capazes de ativar as enzimas digestivas pancreáticas a agir contra o próprio pâncreas. Entretanto em muitos casos não é possível estabelecer diagnóstico sendo diversas vezes considerada de origem idiopática (sem causa definida). Alguns fatores são considerados como etiológicos ou predisponentes, como obesidade , consumo de dietas ricas em gordura,   hiperadrenocorticismo , hipotiroidismo , alguns medicamentos, trauma , infecção ascendente por bactérias intestinais, por manipulação cirúrgica e diabetes (aproximadamente 60% de seres humanos diabéticos possuem a função pancreática diminuída, além do que , conforme revelam estudos recentes, a diabetes pode ser secundária à insuficiência pancreática exócrina). É  provável o envolvimento de mais de um fator e  ocorre tipicamente em animais de meia idade a idosos, não havendo predileção sexual com a maioria dos indivíduos acometidos sendo obesos.


Com relação à apresentação clínica da pancreatite, é adotada a classificação de doença aguda ou crônica. Quando de curso agudo a doença tem início rápido podendo recidivar. Esta normalmente é autolimitante e de bom prognóstico, denominada pancreatite leve, entretanto pode se manifestar de forma intensa, progressiva e com danos mais sérios ao organismo do indivíduo acometido, sendo , assim , a chamada pancreatite grave ou intensa, de prognóstico desfavorável. Da mesma forma , quanto à intensidade da doença (leve ou intensa), a pancreatite pode ter curso crônico, e ser contínua e latente ou recorrente e episódica, podendo causar diversas complicações no paciente portador da forma intensa, em função de uma insuficiência pancreática. Importante salientar que a pancreatite aguda não é causa de pancreatite crônica .


Os sintomas mais comumente observados na pancreatite aguda são  dor abdominal, prostração , perda de apetite , vômito e, em alguns casos, diarréia, além dos sintomas resultantes de complicação sistêmica em decorrência do processo inflamatório do pâncreas. Quando a pancreatite se agrava,  a evolução negativa do quadro geral leva ao choque e colapso. No caso da pancreatite crônica os sintomas são variáveis e inespecíficos, variando em gravidade de acordo com sua intensidade.


Portadores da apresentação intensa da pancreatite são considerados, em sua grande maioria pacientes críticos, devido à sua alta mortalidade. O pâncreas afetado libera rapidamente substâncias como a bradicinina , com ação vasodilatadora, que reduz o fluxo sanguíneo pancreático acelerando o processo inflamatório do órgão e gerando queda súbita e grave da pressão arterial. Os produtos liberados durante o processo inflamatório do pâncreas, sofrerão absorção sistêmica, culminando com falência múltipla de órgãos , colapso e choque nos quadros mais avançados da doença , sendo a sepse (septicemia) e a insuficiência respiratória as causas mais comuns de óbito nestes pacientes.


O diagnóstico da pancreatite é baseado na história e sinais clínicos , através de imagem de acordo com a disponibilidade do aparelho, sendo mais comum o diagnóstico por alterações radiográficas e ultrassonográficas, além das diversas alterações laboratoriais detectáveis. Quando diagnosticada, deve ser tratada o mais breve possível para que não ocorra seu agravamento, podendo ser eleito o tratamento clínico e até cirúrgico quando não há rapidez e precisão no diagnóstico. O objetivo principal da terapia do paciente portador de pancreatite consiste em eliminar a causa primária, reduzir a secreção pancreática, aliviar a dor, corrigir todos as complicações sistêmicas existentes e submeter monitoramento por meio de terapia intensiva.


Artigos recomendados : 










Animais internados em
unidade de tratamento intensivo (UTI)












domingo, 15 de abril de 2012

Tosse

Tosse é o esforço expiratório que produz expulsão súbita e ruidosa do ar dos pulmões , comumente em uma tentativa de libera-los de algum conteúdo estranho. O reflexo da tosse é o resultado da irritação mecânica ou química da faringe, laringe, árvore traqueobrônquica, e algumas das vias respiratórias menos calibrosas.

Tal manifestação, enquanto síndrome, é particularmente irritante para o paciente e para seu proprietário, e pode ser tão perturbadora a ponto de exaurir o indivíduo acometido. Entretanto a maior preocupação com relação à sua existência ou persistência trata-se de sua causa , já que  pode representar não só patologias de bom prognóstico, como também doenças graves como tumores ou cardiopatias, além de disseminar microrganismos ou trazer prejuízo ao próprio portador da tosse.

As causas da tosse em pequenos animais podem ser divididas em tosse de origem inflamatória , neoplásica , cardiovascular , alérgica, traumática , por causas físicas e parasitária, sendo esta divisão importante para a determinação da conduta a ser adotada pelo médico veterinário, que deve iniciar seu inquérito investigativo , se informando do horário de maior ocorrência e de seu aspecto.

Quando de origem inflamatória a tosse normalmente é observada durante o dia podendo haver ou não a presença de secreção, o que a classifica como produtiva ou não produtiva. Tal processo pode ocorrer em decorrência de processos inflamatórios existente em todas as estruturas do trato respiratório, podendo ser de curso agudo, como nos quadros infecciosos causados por bactéria, vírus ou fungos ou de curso crônico como na Bronquite crônica ou nos casos de estenose de traquéia.

Tosse de origem neoplásica, como o próprio nome diz, é provocada pela presença de algum processo tumoral , seja ele de comportamento benígno ou malígno, localizado em alguma estrutura do trato respiratório. O tumor pode ser de origem primária ou metastática, sendo esta última comumente observada nos pulmões de pacientes portadores de tumor maligno mamário ou ósseo. Além dos pulmões, os processos neoplásicos do trato respiratório, são  comuns na traquéia, laringe , mediastino e linfonodos em caso de Linfoma. Normalmente a tosse de animais portadores de tal patologia é classificada como não produtiva e  frequentemente observada durante o dia.

Doenças cardíacas, também denominadas cardiomiopatias, têm como um de seus principais sinais clínicos, a tosse, que inicialmente é observada em períodos noturnos. Inúmeras vezes, o paciente portador de tal distúrbio tem seu diagnóstico em função do incômodo causado pela tosse, já que é a partir da persistência deste sintoma que o animal é levado à consulta veterinária. Animais acometidos por insuficiência cardíaca congestiva , podem apresentar aumento de tamanho do coração que provoca compressão de estruturas respiratórias adjacentes levando a tosse. Estes possuem retorno venoso comprometido, levando ao aumento do volume sanguíneo em vasos pulmonares e elevando sua pressão. Tal processo leva ao extravasamento de líquido dos vasos, causando seu acúmulo nos pulmões acarretando edema pulmonar, de prognóstico bastante reservado, mas que em processos iniciais,  é sinalizado com a presença de tosse de aspecto produtivo, melhorando o prognóstico.

Causas alérgicas, também podem ser representadas como fatores causadores de tosse, e devido á liberação de substâncias eliminadas nestes processos, como mecanismo fisiológico de defesa do organismo, ocorre irritação das estruturas em contato com determinado alérgeno. Ocorre normalmente durante o dia e possui característica produtiva. 

Traumas localizados no pescoço, principalmente por uso inadequado de coleiras enforcadoras, ou até em situações mais graves como a presença de corpos estranhos, bastante comuns nas ingestões de objetos ou nas perfurações esofágicas por ingestão de osso de frango, caracterizam a tosse como de origem traumática, sendo a mesma de característica produtiva.

Dentre os fatores físicos causadores de tosse pode-se destacar como bastante comum, a exposição a gases nocivos e à fumaça de cigarro. Há maior probabilidade de animais residentes em ambientes urbanos sofrerem de moléstia respiratória crônica, em decorrência da maior concentração de poluentes ambientais. No caso de contato com fumaça, principalmente  de cigarro e especialmente indivíduos considerados fumantes passivos, cujo proprietário é tabagista, ocorre irritação da mucosa pulmonar estimulando o sintoma da tosse. Neste caso, assim como no contato com poluentes , a ocorrência de doença crônica respiratória é bastante comum. A tosse neste caso geralmente é produtiva.


Por último, dentro da classificação proposta, está a tosse de origem parasitária. Neste caso o sintoma ocorre pela irritação causada pela presença do parasito nos pulmões, merecendo mais destaque pela maior prevalência a Larva migrans visceral (http://nucleoveterinariobh.blogspot.com.br/2011/12/verminoses-intestinais.html)  e  Dirofilariose (http://nucleoveterinariobh.blogspot.com.br/2011/12/verme-do-coracao.html). Quando de origem parasitária a tosse ocorre normalmente durante o dia e se apresenta produtiva.

Artigos recomendadoshttp://200.136.76.129/comunicacao/publicacoes/ics/edicoes/2004/04_out_dez/V22_N4_2004_p279-286.pdf
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/semagrarias/article/view/2836/2411
http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs-2.2.4/index.php/veterinary/article/view/13994/14247
http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/331/33134213.pdf







Deslocamento dorsal da traquéia
por aumento
 no tamanho do coração

domingo, 1 de abril de 2012

Fisioterapia na Medicina Veterinária

Fisioterapia é uma área relativamente nova na Medicina Veterinária, e pode ser considerada essencial na  recuperação de cirurgias ortopédicas principalmente. Em seu conceito, define-se fisioterapia como uma ciência aplicada , cujo objetivo é o estudo do movimento em suas formas de expressão e potencialidades, quer nas suas alterações patológicas, quer nas suas repercussões psiquicas e orgânicas, com o objetivo de preservar, manter e restaurar a integridade de um órgão, sistema ou função, promovendo reabilitação , controle da dor e assim melhoria da qualidade de vida.

No caso de sua aplicação na reabilitação de animais, é denominada Fisioterapia Veterinária , e trata-se de uma prática exclusiva do profissional graduado em medicina veterinária, devidamente preparado para tal,  já que somente este é habilitado a avaliar o animal quanto a sua anatomia, biomecânica , fisiologia, e patologia clínica e cirúrgica. Possui diversas indicações, entretanto as mais comumente tratadas pela fisioterapia estão relacionadas aos distúrbios do sistema locomotor. Pacientes portadores de patologias do sistema nervoso, como  AVE (acidente vascular encefálico) ou distúrbios  da medula espinhal também podem ser alvo dos processos de reabilitação assistida pelo fisioterapeuta veterinário.


reabilitação direcionada às condições ortopédicas é uma das mais importantes áreas da fisioterapia em animais domésticos, especialmente os cães. Dentre as diversas indicações, estão a recuperação de fraturas, distúrbios articulares, rupturas de ligamentos e afecções tendíneas. A formulação do protocolo de tratamento depende da identificação dos distúrbios apresentados, destacando que a priorização dos problemas, a opção pelos métodos de tratamento apropriado e sua frequência irão determinar o sucesso da recuperação.


São normalmente utilizadas algumas modalidades fisioterápicas no processo de reabilitação que sofrerá variações de frequência e tempo de acordo com o protocolo adotado pelo fisioterapeuta veterinário. Algumas destas modalidades são mais comumente realizadas na rotina clínica veterinária. São elas a cinesioterapia ,hidroterapia, crioterapia , termoterapia , eletroterapia , laserterapia e ultra-som.


Cinesioterapia é a prática da reabilitação através do movimento. Possui como objetivo o aumento da força muscular , melhoria da deambulação (marcha) equilíbrio e coordenação , aumento da amplitude de movimento (ADM) , prevenção de contraturas e aderências. As técnicas realizadas nesta modalidade são os exercícios por movimento passivo e ativo.


Hidroterapia é a modalidade da fisioterapia que se utiliza de diferentes combinações de exercícios em água, tornando sua utilização principalmente em piscinas, um dos recursos mais utilizados por fisioterapeutas, inclusive veterinários. Tem inúmeras vantagens como a ausência de impacto , a facilidade de sua realização em pacientes caninos devido ao bem-estar que a prática proporciona , melhoria do condicionamento físico  e fortalecimento de vários grupos musculares simultaneamente. 


O termo crioterapia é utilizado para descrever a aplicação de modalidades de frio ,que têm uma variação de temperatura de 0°C a 18,3°C, objetivando auxílio no tratamento das condições ortopédicas de curso agudo principalmente. Atua promovendo queda da temperatura local, diminuindo assim o metabolismo e propiciando diminuição da dor , inflamação e espasmo muscular. Pode ser feita utilizando compressas de gelo , imersão em água gelada ou spray. 


Termoterapia é a terapia que utiliza o calor como  tratamento de patologias de curso subagudo ou crônico, e dentre as modalidades da fisioterapia é a mais antiga que se tem conhecimento na prática da reabilitação física. Seus efeitos incluem aumento da taxa metabólica celular e aumento do fluxo sanguíneo por consequência da vasodilatação, promovendo relaxamento muscular, analgesia , redução da rigidez articular e aumento da extensibilidade de tendões. A terapia pelo calor é obtida por compressas quentes , bolsa térmica, luz incandescente, parafina ou luz infravermelha.


Eletroterapia consiste no uso de correntes elétricas dentro da terapêutica. Os aparelhos de eletroterapia utilizam uma intensidade de corrente muito baixa e seus eletrodos são aplicados diretamente sobre a pele, usando o organismo como condutor. Estimulação elétrica nervosa transcutânea (T.E.N.S.) é uma das   principais correntes elétricas terapêuticas, utilizada em processos álgicos agudos e crônicos , por atuarem nos centros moduladores da dor.  Outro método de eletroterapia  é pelo Estímulo Elétrico Funcional (FES) que promove contração muscular através de corrente elétrica com o objetivo de melhorar o tônus muscular e estimular o fluxo sanguíneo nos músculos. Ambas as técnicas, com grande aplicabilidade na reabilitação física de animais , são realizadas por meio de aparelhagem específica.


A palavra Laser tem origem na abreviação de Light Amplification Stimulated Emission  (Amplificação da luz por emissão estimulada) e consiste de ondas eletromagnéticas emitidas sobre algum tecido com objetivos variados. Na medicina de um modo geral , mais especificamente na fisioterapia veterinária, possui alguns efeitos biológicos aplicáveis ao processo de reabilitação física por auxiliar nos processos de cicatrização , aumentar a circulação sanguínea e linfática , promover analgesia e redução de edema e inflamação dos tecidos acometidos.


Ultra-som é uma modalidade terapêutica de penetração profunda que ao ser transmitida aos tecidos biológicos é capaz de produzir alterações celulares por efeitos mecânicos. A transmissão ocorre pelas vibrações das moléculas do meio através do qual a onda se propaga, e a medida que atravessa o tecido, tem parte da energia absorvida, promovendo aquecimento local. Este efeito atua no alívio da dor , na diminuição da rigidez muscular, na redução dos processos inflamatórios , na regeneração de tecidos e no aumento do fluxo sanguíneo, sendo uma técnica amplamente utilizada na reabilitação física do paciente.



http://www.scielo.br/pdf/cr/v38n4/a51v38n4.pdf


Hidroterapia

    
      Ultra - Som


     
                                    T.E.N.S.


Laserterapia

          
                                        
                           Cinesioterapia                                                                                       Eletroterapia


  

                                                         








quinta-feira, 15 de março de 2012

Doença do Trato Urinário Inferior Felino

Gatos domésticos são constantemente acometidos pela Doença do Trato Urinário Inferior Felino (DTUIF). Trata-se de uma enfermidade que compreende várias desordens do trato urinário inferior (bexiga e uretra), e que se inicia em sua grande maioria com um processo inflamatório causado pela formação de urólitos nestes órgãos, popularmente conhecidos como cálculos urinários.

Felinos acometidos pela DTUIF podem manifestar um ou mais dos diferentes sintomas associados ao comprometimento das vias urinárias inferiores. Geralmente apresentam hematúria (sangue na urina) e/ou polaquiúria (aumento na frequência de micção, porém com pouca ou nenhuma quantidade de urina). Estes sintomas podem passar despercebidos e culminarem com o agravamento do problema, pois o processo inflamatório do qual o trato urinário é acometido leva à formação de restos celulares e coágulos levando à formação dos chamados tampões uretrais, que associados à presença de cristais ou cálculos, provoca na maioria dos casos, a obstrução uretral. Este é o sintoma mais dramático da patologia e normalmente requer atendimento emergencial, uma vez que o paciente acometido já se apresenta extremamente debilitado devido à série de alterações bioquímicas sanguíneas causadas pela retenção urinária.

Por algum tempo atribuiu-se a formação de cálculos urinários aos alimentos secos industrializados, que por apresentarem altos níveis de cálcio, magnésio e fosfatos predispunham à formação de urólitos. Entretanto, estudos atuais demonstram que a precipitação de cristais que levam a formação dos cálculos ocorrem muito mais em função do potencial hidrogeniônico urinário (pH urinário), sendo mais importante sua manutenção em faixa ideal ( 6,1 a 6,5) do que o controle na ingestão de minerais para a prevenção do distúrbio. 

O tipo de dieta oferecida pode interferir diretamente no pH urinário. As ricas em proteínas de origem animal, tendem a produzir urina ácida. Em contrapartida, dietas ricas em cereais e vegetais, de um modo geral, tendem a formar uma urina alcalina. Basicamente, se o pH urinário for ácido (abaixo de 6,1) pode ocorrer a formação de cristais de oxalato de cálcio e pH urinário alcalino (acima de 6,5) pode levar a formação de cristais de estruvita, e o equilíbrio no fornecimento de nutrientes, normalmente obtidos em dietas industrializadas de boa qualidade, ajuda na prevenção do problema. A frequência no fornecimento da alimentação também interfere no pH. Estudos revelam que o livre acesso à ração, e também da água, que leva a ingestão de pequenas porções de ração várias vezes ao longo do dia, mantém o pH urinário com valores constantemente próximos à faixa considerada ideal e evitando assim a precipitação dos cristais.


Outros fatores, considerados de risco podem elevar a incidência de DTUIF. A idade, por exemplo, pode ser considerada como um destes, uma vez que é raro seu surgimento em felinos com menos de 1 ano de idade. Por sua vez , indivíduos acima desta faixa de idade até 4 anos de vida são os mais frequentemente acometidos. 

Animais do sexo masculino possuem a peculiaridade de apresentarem sintomatologia mais grave, já que é neste indivíduo, devido ao diâmetro e comprimento da uretra, que ocorrem as obstruções. Fêmeas são igualmente acometidas, mas por possuirem uretra curta e larga , eliminam mais facilmente o urólito, dificilmente ocorrendo a obstrução.

Outro provável fator importante de risco se deve ao estado reprodutivo, já que animais castrados tendem a manifestar obesidade. Tal condição torna o indivíduo sedentário e a menor atividade física diminui a necessidade de ingestão de água, que culminará em maior retenção urinária e por consequência uma maior concentração de urina predispondo a precipitação de cristais e levando à formação do cálculo. 

Menor ingestão de água é um fator determinante para o aparecimento de DTUIF, não só pelo fato mencionado no parágrafo anterior, como também pelo próprio hábito da espécie felina, que possui grande capacidade de retenção de fluidos , o que a leva a suportar maiores períodos de privação de água. O comportamento extremamente higiênico, outra característica marcante desta espécie, também pode contribuir para o surgimento da doença, já que caixas de areia sujas e/ou colocadas próximas aos locais de alimentação estimulam o felino à retenção de urina.

Por se tratar de uma enfermidade extremamente frequente em animais da espécie felina e por sua gravidade, principalmente nos casos de obstrução uretral, a DTUIF deve ser alvo de grande atenção por parte do profissional médico veterinário, já que apenas ele poderá orientar devidamente os proprietários de gatos a adotarem medidas de manejo direcionadas para uma alimentação adequada e aos hábitos peculiares nesta espécie. Tais medidas serão fundamentais na prevenção do problema, entretanto uma vez instalado, este deve ser imediatamente detectado para que não se agrave. A manifestação dos sintomas, mesmo que em estágios iniciais determinam a necessidade de uma avaliação clínica, e o monitoramento destes animais, quando diagnosticado o distúrbio, deve ser realizado frequentemente durante toda sua vida , através de acompanhamento clínico, laboratorial e por exames de imagem, todos de acordo com a indicação do profissional responsável.

Artigo(s) recomendado(s): http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/bjvras/v35n2/35n2a04.pdf

http://www.ceres.ufv.br/CERES/revistas/V53N310P08906.pdf

http://periodicos.ufersa.edu.br/revistas/index.php/acta/article/view/1446/4501




Felino em posição de urinar (Polaquiúria)











quinta-feira, 1 de março de 2012

Hipotiroidismo

Hipotiroidismo canino é a endocrinopatia (doença hormonal) mais comum nesta espécie e se caracteriza  pela deficiência na produção dos hormônios tiroxina ( T4) e tetraiodotironina (T3), ambos secretados pela glândula tiroide. 

Tal glândula se localiza lateralmente à traquéia, na região dos anéis traqueais proximais e produz principalmente T4 e níveis menores de T3. É regulada por um hormônio produzido pela hipófise denominado TSH ( hormônio tirostimulante) que se liga a receptores na própria glândula tiroide ativando uma série de eventos que culminam na liberação de T3 e T4. Assim, de acordo com os níveis de TSH no sangue, a  tiroide aumenta ou diminui seu funcionamento. 

Hormônios tiroideanos influenciam a atividade metabólica de quase todos os tecidos, sendo responsáveis pelo metabolismo de proteínas , carboidratos e gordura, além de atuarem no crescimento e maturação fetal,  fluxo sanguíneo e débito cardíaco, respiração , digestão e função reprodutora e do sistema nervoso central.  Também atuam na fisiologia de diversas outras glândulas do organismo.

Pacientes portadores de hipotiroidismo possuem ação deficiente dos hormônios tiroideanos sobre seus órgãos-alvo, secundária à secreção insuficiente de T4 e T3. A principal causa da doença no cão adulto se deve a um distúrbio autoimune, que induz, com o passar do tempo, à atrofia da tiroide, apesar de , inicialmente, ocorrer um aumento de seu volume denominado bócio. Dependendo da evolução e da expressão clínica do distúrbio, o hipotiroidismo pode ser subclínico (presença de sinais leves a moderados) ou clínico ( presença de sinais clássicos da doença).

Hipotiroidismo subclínico constitui a primeira fase da doença e se caracteriza por aumento da concentração de TSH , com níveis de T4 normais. Isto se explica pela manutenção dos níveis sanguíneos de T4, apesar da diminuição de sua secreção pela glândula tiroide, que já provoca, nesta fase alterações em diversos tecidos. Conforme a doença evolui e a secreção de T4 fica ainda mais reduzida, a hipófise aumenta a produção de TSH para forçar a produção de T4 e manter o indivíduo comprometido em condições normais. As primeiras alterações são vistas no metabolismo de gordura, levando ao aumento de colesterol. O sistema imunológico também é afetado nesta fase da doença, levando a dermatopatias devido a infecções recorrentes.

Sinais clínicos evidentes caracterizam a doença em hipotiroidismo clínico, fase a qual , já ocorre comprometimento severo na secreção diária de T4, já havendo diminuição considerável de seus níveis sanguíneos. Surgem manifestações dermatológicas intensas que se apresentam com seborréia seca ou oleosa, além de alopecia (falha no pelo), principalmente na região da cauda. Apenas 20% dos cães acometidos manifestam alopecia generalizada. Obesidade é uma manifestação frequente devido ao comprometimento do metabolismo de gordura, assim como de glicose, levando o indivíduo comprometido a apresentar letargia e sonolência. Alterações na função reprodutiva, como ausência de cio em fêmeas ou baixa libido em machos, também são manifestações comuns. Também merecem destaque as alterações cardiovasculares, como bradicardia e diminuição da contratilidade do miocárdio, e neuromusculares, como convulsões, ataxia (incoordenação dos movimentos musculares voluntários) e neuropatia facial levando ao mixedema facial (edema na face e pálpebras),  e determinando um aspecto de "facies tragica" ( expressão traduzida do latim para o português como "rosto de tragédia" ).

O diagnóstico de hipotiroidismo é feito através de exame clínico, laboratorial e de imagem, cuja interpretação, a cargo do clínico veterinário, determinará o tratamento da enfermidade, através da reposição de hormônio, além da correção dos distúrbios causados pela queda dos níveis de hormônios tiroideanos. Cães adultos e idosos  são estatisticamente os mais comumente acometidos, entretanto filhotes podem ser portadores de hipotiroidismo congênito ou juvenil, adquirido durante o período de crescimento. Assim, independente da idade do cão, qualquer manifestação clínica compatível com as anteriormente citadas, ou até mesmo sinais inespecíficos, devem representar motivo de investigação desta doença hormonal de bom prognóstico, desde que precoce e adequadamente tratada.

Artigo(s) recomendado(s): http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/bjvras/v43n6/06.pdf

http://ddd.uab.cat/pub/clivetpeqani/11307064v16n2/11307064v16n2p111.pdf

http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/bjvras/v45n4/05.pdf



Boxer com piodermite facial recorrente
e aspecto de facies tragica




Escassez de pelagem na cauda ( "cauda de rato")









quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

AVC

Acidente vascular cerebral (AVC), denominado atualmente, com seu conceito ampliado de acidente vascular encefálico (AVE), e popularmente conhecido como derrame cerebral, é caracterizado pelo comprometimento súbito da função neurológica, decorrente de obstrução (isquemia) ou ruptura de vasos sanguíneos cerebrais (hemorragia). É considerado como a apresentação clínica mais comum de doenças cerebrovasculares em que o  paciente pode apresentar de dificuldade de movimentação de um membro locomotor a coma e outros sintomas considerados graves. Por convenção , os sintomas clínicos devem continuar por mais de 24 horas para qualificar o diagnóstico de AVE, que é  frequentemente associado ao dano permanente do encéfalo ou sequela. Se houver resolução dentro deste prazo, o episódio é denominado de ataque isquêmico transitório (AIT).

Antes considerado um diagnóstico incomum, o acidente vascular encefálico (AVE), tem sido cada vez mais identificado em cães e gatos. Este depende da exclusão de outras causas de encefalopatia focal e da identificação de uma doença primária que pode ser responsável por eventos isquêmicos/vasculares. Avaliação clínica detalhada com bastante ênfase para os testes neurológicos, associado a exames laboratoriais, auxiliam na detecção, às vezes precoce, do problema , bem como na determinação do prognóstico, que pode até ser favorável. Exames de imagem em alta definição como tomografia computadorizada e ressonância magnética ,podem revelar lesões focais, porém, nem sempre é possível diferenciar tais lesões das de outras doenças como as neoplasias por exemplo. Outro fator limitante é a dificuldade na realização destes exames, já que ainda são de difícil acesso na medicina veterinária, sendo seu custo o maior entrave, embora já existam alguns centros no Brasil disponibilizando-os.


Assim como em seres humanos, esta patologia em animais pode ser causada por obstrução dos vasos sanguíneos , resultando em isquemia e denominada AVE isquêmico , ou pela ruptura das paredes dos vasos sanguíneos ,resultando em hemorragia cerebral e denominada AVE hemorrágico. 

AVE isquêmico ocorre pela ausência de fluxo sanguíneo cerebral decorrente de obstrução arterial ( trombo) ou pela diminuição da pressão de perfusão sanguínea no cérebro. Nos primeiros momentos do AVE isquêmico não há morte de tecido cerebral, mas a falta de suprimento sanguíneo provoca a rápida degeneração do mesmo, já que trata-se de estrutura metabolicamente muito ativa e que demanda bastante oxigênio e glicose para manutenção de sua função. As causas básicas identificadas em casos histologicamente confirmados , já que na maioria dos casos a confirmação do diagnóstico se dá após o óbito do animal durante necrópsia, incluem tromboembolismo séptico, ateroesclerose associada ao hipotireoidismo primário, migração parasitária ou êmbolo parasitário (Dirofilaria immitis) e êmbolo de células tumorais metastáticas. Em termos de suspeita clínica observa-se que pacientes com idade avançada, portadores de doenças de origem metabólica como a diabetes e o próprio hipotireoidismo , hipertensão , aumento dos níveis colesterol e obesidade, são predispostos ao acometimento por AVE isquêmico.

AVE hemorrágico ocorre pela ruptura de um vaso sanguíneo intracraniano levando ao contato  do  sangue extravasado com o tecido nervoso e prejudicando a função dos tecidos cerebrais tanto pela reação inflamatória quanto pela pressão exercida por coágulos no local. Uma causa comum para este tipo de AVE é o aneurisma, com grande índice de mortalidade em medicina humana e raramente diagnosticado na rotina clínica veterinária.

A abordagem do paciente com suspeita de AVE é realizada pela história que deverá ser bem detalhada durante a anamnese e por seu exame físico. Os sinais clínicos podem variar dependendo da região afetada, e aqueles mais comumente observados estão relacionados à capacidade em identificar a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, alteração na força exercida pelos músculos e na posição de cada parte do corpo em relação às demais, dificuldade de comunicação (latido ,miado, abanar a cauda , ronronar), incoordenação dos movimentos, convulsão e perda da visão.

A maioria dos animais acometidos por AVE recuperam-se dentro de algumas semanas, somente com terapia de suporte e monitoramento, apresentando taxas de sucesso na recuperação mais frequentes do que em seres humanos. Os sinais clínicos da disfunção neurológica nos casos de distúrbio isquêmico tendem a permanecer estáveis ou a melhorar ao longo do tempo, ao passo que nos distúrbios de origem hemorrágica, embora raros em animais, há maior índice de óbito destes pacientes. A recuperação está diretamente relacionada ao reconhecimento dos sintomas e de um rápido e eficaz atendimento, que será realizado a critério do médico veterinário. Além de tratamento a base de medicamentos utilizados no controle da pressão arterial, na recuperação das funções motoras comprometidas e na terapia direcionada para a causa primária do AVE, encontra-se na fisioterapia e acupuntura, alternativa extremamente eficaz no auxílio à reabilitação destes pacientes.


O aumento da incidência de AVE em animais segue uma tendência atual também observada em humanos, provavelmente devido ao fato deste distúrbio ter sua ocorrência associada à idade. Com o avanço da medicina, tanto  pessoas quanto animais de estimação tiveram um aumento no tempo de vida e, por consequência disso, um maior número de casos de AVE  é constatado. Hábitos de vida sedentários e alimentação inadequada também são fatores que explicam o aumento da incidência. As dificuldades de diagnóstico e tratamento em medicina veterinária, seja em decorrência das tecnologias disponíveis ou aos altos custos ,tornam os cuidados preventivos, relacionados a modos de vida saudáveis, as melhores estratégias para o combate ao AVE em animais. A prevenção poderá reduzir o número de casos, e o tratamento adequado, mesmo que não leve à cura definitiva, eleva significativamente a qualidade de vida e o bem-estar do animal.



http://content.yudu.com/Library/A1t5sy/ClinicaVeterinaria/resources/33.htm  (artigo completo disponível apenas mediante cadastro)


Ilustração representando cérebro com AVE




Esquema ilustrativo de AVE isquêmico e AVE hemorrágico